Jogar coisas nos outros é uma ação impulsiva ou planejada? Na dúvida, diria repulsiva e retardada. Mas que pode ser, acima de tudo, trágica. Na noite de sexta-feira, um torcedor morreu nas imediações do Arruda, no Recife, após ser atingido por privada na cabeça. Privada! Que "voou" para fora do estádio em meio a uma confusão após jogo entre Santa Cruz e Paraná pela Série B do Brasileiro. Absurdo fatal.
Nos tempos de Jesus, o negócio era jogar pedras. Mulheres flagradas em adultério já esperavam por humilhação, dor e morte. Conhecedor das falhas humanas, Jesus fez bem em calar os ávidos por apedrejar uma jovem que teria chifrado o maridão. "Aquele que, dentre vós, está sem pecado seja o primeiro que atire a pedra". Silêncio.
O que diria Jesus ao saber que, dois mil anos depois, num país "abençoado por Deus", tem gente jogando privada para matar. E pior: sem saber quem seria exatamente a vítima. O lance era atirar para causar o pior possível. Causou.
Daniel Alves estampa capa de revista nacional neste fim de semana: "Aqui, ó!" é a chamada na qual aparece dando uma banana aos racistas. Como se sabe, ele protagonizou cena instantaneamente clássica ao comer a fruta atirada no campo por torcedor do Villarreal no domingo passado.
O pai de Daniel lançou alerta ao filho: valeu, mas não faça mais isso. Vai que tem veneno na próxima. Não é de duvidar.
A mãe de Paulo Ricardo Gomes da Silva não tem mais a quem dar conselhos. Paulo, 25 anos, soldador, era o torcedor do Sport morto do lado de fora do Arruda. Teve o crânio amassado pela privada atirada por um "ser racional".
Que o filho de Deus, num descuido raro, nem fique sabendo disso. A morte de Paulo envergonha a humanidade que Jesus, um dia, desejou salvar.
O autor é editor executivo do JC