Os apitos dos funcionários de serviços de saúde que ecoaram pelo Calçadão da Batista de Carvalho, na manhã deste sábado, podem ser ouvidos em Brasília (DF) e, depois de anos seguidos de reivindicação, culminar com a redução na jornada de 36 para 30 horas semanais para enfermeiros e, quem sabe, técnicos. Mas, entre gestores do sistema e mesmo funcionários, a jornada menor não será a solução para o desgaste no ambiente de trabalho. Isso porque mais de 2/3 dos profissionais de base do segmento atuam em dupla jornada.
A presidente do Sindicato dos Trabalhadores em Serviços e Estabelecimentos de Saúde de Bauru e Região, Vera Lúcia Salvadio Pimentel, coloca a redução na jornada como prioridade, mas associada a outras medidas. “Nossos dados são de que boa parte dos funcionários atua em até três jornadas e a maioria tem dois empregos. A jornada de 30 horas é uma necessidade, porque esses trabalhadores não têm tempo para conviver com a família e vivem sob intenso estresse. Isso precisa ser ajustado com piso de referência, senão o problema vai persistir.”
Vera Lúcia afirma que, nos moldes atuais, funcionários estão utilizando o período de férias para cuidar de sua própria saúde. “Com duas e três jornadas, fora quem tem bico como cuidador, o trabalhador da saúde não tem a menor condição de se cuidar. E muitos estão trabalhando doentes, esperando as férias para ir fazer check-up, ou exame”, reforça.
O sindicato, que realizou passeata no Centro de Bauru ontem, conforme ação organizada em todo o Estado, lembra que uma denúncia foi levada ao Conselho Regional de Enfermeiros (Corem), em São Paulo. “Nós queremos que eles venham aqui, e não que atuem na fiscalização apenas verificando planilhas”, ressalta.
Para o diretor executivo do Hospital de Base, Maternidade Santa Isabel e Ambulatório Médico de Especialidades (AME), instâncias geridas pela Fundação para o Desenvolvimento Médico Hospitalar (Famesp) e que também comanda o Hospital Estadual de Bauru (HE), Antonio Rugolo Júnior, a reivindicação tende a ser recepcionada em lei, mas não resolverá a pendência.
“É uma reivindicação antiga e seu resultado do ponto de vista operacional e financeiro é que teremos a ampliação de custo no sistema para fazer a cobertura de escalas. É quase 1/3 a mais de custo para o setor, em se tratando de redistribuição de horários para técnicos e enfermeiros. Mas isso não resolve na prática porque 70% dos trabalhadores atuam em mais de uma jornada”, avalia.
Na visão de Rugolo, a energia pela redução de jornada deveria ser concentrada pela luta por melhor remuneração. “A dupla jornada está consolidada no sistema. Lutar por melhor salário deveria ser a questão central. Mas acho que a questão das 30 horas tende a ser aprovada”, complementa. Durante a passeata, funcionários reclamaram que nos turnos dos hospitais o número real de profissionais atuando é bem menor do que está nas planilhas.
Sobre o assunto, a assessoria de imprensa da Unimed posicionou: “A Unimed e o Hospital Unimed Bauru seguem as determinações da Lei Trabalhista sobre o assunto”.
Temática
Com o tema “Trabalhador valorizado é saúde para a população”, a 3ª Passeata Paulista da Saúde integra as ações em homenagem ao Dia Estadual do Trabalhador da Saúde, comemorado no dia 12 de maio. O objetivo foi conscientizar autoridades, empregadores de estabelecimentos de saúde e a população para as condições de trabalho dos profissionais da saúde e a qualidade do atendimento prestado.
As bandeiras de luta definidas pelos trabalhadores incluem salário, instituição da jornada de 30 horas semanais, piso nacional para enfermagem, atendimento médico-hospitalar gratuito e de qualidade para o profissional da saúde e sua família, mais segurança no ambiente de trabalho, fim do déficit de funcionários, entre outros itens fundamentais para execução de um bom atendimento à população.