Querido pela vizinhança, o aposentado Sebastião João, 90 anos, gostava de passear a pé pelo bairro para conversar. O passeio rotineiro se repetiu na manhã de ontem, mas teve um trágico fim. Sebastião foi atingido por uma moto, cujo condutor fugiu sem prestar socorro. Ele se torna mais um pedestre a engrossar as estatísticas de vítimas do trânsito bauruense. Segundo dados da Empresa Municipal de Desenvolvimento Rural e Urbano de Bauru (Emdurb), das nove mortes registradas em 2014, cinco foram de pedestres atingidos por veículos, o equivalente a 55% do total.
Os números preocupam a Polícia Militar (PM), que aponta uma série de fatores. Entre eles, está a sempre presente imprudência, o aumento da frota e o próprio envelhecimento da população. “Pessoas com mais de 60 anos começam a ficar com os reflexos mais lentos e, para piorar, se tornam mais frágeis fisicamente. Mesmo que a colisão não seja de grande impacto, já pode gerar lesões graves”, observa o tenente José Sérgio de Souza, comandante do Pelotão de Trânsito da PM.
E as pessoas com mais de 60 anos são as vítimas mais frequentes. Neste ano, dos cinco vitimados, três ultrapassavam esta faixa etária.
Frota
O aumento da frota em Bauru, que está próxima de alcançar a marca de 250 mil veículos, também é “vilão”. Isso porque o excessivo número de veículos circulando reduziu a velocidade média nas ruas. “As colisões entre veículos tendem a ser mais leves. Já quem está mais desprotegido, como motociclistas e pedestres, ainda ficam bastante vulneráveis”, pontua. As estatísticas corroboram.
De acordo com os dados da Emdurb, além dos cinco pedestres, apenas motociclistas morreram no trânsito de Bauru, neste ano: quatro homens. E, coincidentemente ou não, condutores de moto também estavam envolvidos nos dois casos mais recentes de atropelamento.
“Ao contrário dos carros, as motos ainda conseguem andar em maior velocidade, nos corredores”, analisa o tenente, lembrando que, atualmente, a cidade conta com cerca de 45 mil motos.
‘Ele era independente e animado com a vida’, relata genro da vítima
Aposentado e viúvo, Sebastião João, 90 anos, vivia sozinho em sua residência, na quadra 15 da rua São Sebastião, a poucos metros de onde foi atropelado, por volta das 10h30 de ontem. Devido ao horário, a família acredita que ele estava voltando para casa para preparar o almoço, quando foi atingido pela motocicleta.
“Ele era totalmente independente, tinha uma saúde ótima e era animado com a vida. Gostava de passear todos os dias pelo bairro, conversar com os vizinhos, ou ficar sentado em frente de casa. Ele era muito querido por todo mundo”, conta o genro José Carlos Pinholi, 57 anos. “E ele dizia que só caminhava por perto porque, caso acontecesse alguma coisa, sempre teria alguém conhecido próximo para acudi-lo”, completa.
Pai de cinco filhos, Sebastião foi, durante muitos anos, funcionário da antiga Sambra, mas chegou a abrir um açougue na Vila Independência, antes de se aposentar devido a uma cirurgia para extração de um dos rins. “Apesar desse problema que ele teve, ele era mais forte do que nós. Tinha muito o que viver ainda”, reitera o genro.
Bastante abalados, os filhos do aposentado preferiram não conceder entrevista. O corpo de Sebastião está sendo velado no Terra Branca, na Gerson França, e será sepultado hoje, às 16h30, no Cemitério Jardim do Ypê.
O acidente
O aposentado Sebastião João, 90 anos, morreu após ser atropelado por uma motocicleta, por volta das 10h30 de ontem, na quadra 15 da rua São Sebastião, na Vila Nova Esperança, em Bauru. Segundo informações prestadas por testemunhas à PM, a vítima tentava atravessar a rua, próximo de sua casa, quando foi atingida por uma motocicleta Honda Titan de cor preta.
O condutor fugiu do local. Testemunhas afirmaram à polícia que ele teria colocado o pé na placa para tentar dificultar a identificação. Com isso, populares conseguiram anotar apenas os números da placa, sem as letras.
Ainda de acordo com a PM, o socorro foi acionado, mas a vítima morreu no local. Viaturas policiais realizaram buscas, mas, até o fechamento desta edição, o suspeito não havia sido localizado.
‘Vício’ em smartphones agrava a desatenção
O “vício” em acessar os smartphones consequente da popularização deste tipo de equipamento é apontado por especialistas como uma grande preocupação para o agravamento de acidentes de trânsito, já que provoca desatenção tanto em pedestres quanto nos condutores. “É um fator que, comprovadamente, tem contribuído para que os índices de atropelamentos continuem altos no mundo inteiro”, pondera o engenheiro e especialista em segurança viária Archimedes Raia Junior.
Assim como a PM, ele destaca que falta conscientização da população quanto à obediência às regras. “O Código Brasileiro de Trânsito tem um capítulo que fala dos pedestres e que, até hoje, não foi regulamentado”, diz.
Segundo o comando da PM, operações policiais, além de servir para autuar irregularidades, também são realizadas para alertar os motoristas sobre as normas de trânsito. Mas, mais do que conscientização, Raia Junior destaca que o sistema viário de Bauru ainda carece de alguns dispositivos, como os semáforos para pedestres, existentes em número insuficiente na cidade.
“Outra dificuldade é que o tráfego em Bauru não é hierarquizado, ou seja, vias que são consideradas secundárias são igualmente perigosas e o pedestre pode ter dificuldades para avaliar os riscos de cada uma delas”, pondera.
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