Vivemos em nossa cidade de Bauru em época de grandes mudanças no planejamento urbano e, para que possamos tirar o melhor dela, precisamos compreender quem somos e como nos encaixamos na nova ordem urbanística proposta para nós. Ao olhar de uma maneira mais técnica para aquilo que temos, poderemos descobrir o ?diagnóstico médico? de nossa cidade. Sabemos que o corpo humano é dividido em três partes: cabeça, tronco e membro. Além do corpo humano, as cidades também têm uma mera semelhança com as três partes, por ser um organismo vivo que se modifica com o tempo. Uma vez, um médico canadense falou ao arquiteto urbanista: "ouça seu paciente e ele dirá o que tem". Será que estamos ouvindo a nossa cidade de Bauru no planejamento urbano?
A cidade foi diagnosticada pelo médico urbanista com várias complicações médicas. As primeiras delas são relacionadas com a cabeça, a cidade de Bauru está com problemas na parte cerebral, que só serão resolvidos através do médico especialista "Planejador Educador". Da mesma forma que ocorreu no Plano Diretor Participativo (PDP), passado o período de votação do PDP a população parou de ser envolvida de maneira capacitatória e novamente não tivemos mais dispêndio nenhum de esforços, tal como o que abriu naquele momento discussão urbanista de nossa cidade. E essas complicações médicas se estenderam para outras partes, como o tronco, levando a cidade a graves problemas no coração, pulmões e intestinos. As artérias coronárias são vasos que carregam o sangue para irrigar o coração, ou seja, "centro da cidade", as artérias coronárias da cidade de Bauru estão cada vez mais entupindo.
Hoje a cidade detém aproximadamente 32 vias arteriais coronárias, entre elas a Avenida Duque de Caxias, Avenida Castelo Branco, Avenida Comendador José da Silva Martha, entre outras. Contudo, as artérias são vasos sanguíneos que carregam o sangue para fora do coração, e no caso da cidade Bauru estão sofrendo com uma série de problemas estruturais, como ruas sem pavimentação e até mesmo exercendo o papel de artéria coronária, como é caso Rua Bernardino de Campos, Rua Alto Acre, Rua Campos Sales, entre outras. E para entender essa quantidade de vasos, a cidade de Bauru tem hoje cerca de 14 mil artérias. Nesse caso, somente um especialista médico em Mobilidade Urbana poderia reverter o quadro clínico. Pode-se dizer que os pulmões da cidade de Bauru também foram afetados, não há clareza alguma com o que está acontecendo com as 12 bacias hidrográficas urbanas criadas no Plano Diretor Participativo. Como estão nossos verdes e as nossas águas?
O doutor urbanista acredita, então, que a resposta para efetivação das políticas públicas ambientais está também e principalmente ligada à microescala territorial, ou seja, no caso de uma política que vise à minoração dos impactos ambientais. Diante de tão espesso diagnóstico, seriam necessários 12 especialistas médicos em gestão de micro bacia hidrográfica para acompanhar o caso. A usual subestimação dessa necessidade haverá a falta de água 24 horas em nossas torneiras e no futuro próximo quem quiser água terá que investir com recursos próprios.
Os avanços no quadro clínicos trouxeram ao paciente - "a cidade de Bauru" - o refluxo gastroesofágico, que nada mais é que o retorno do conteúdo, como é caso da Avenida Nações Unidas e Rua Alfredo Maia. Registram-se as escaras de decúbito, ou de pressão, que são feridas que aparecem na pele de indivíduos que permanecem muito tempo na mesma posição, como é o caso das favelas e áreas sujeitas a inundações. É preciso, antes de qualquer outra, ter um Instituto de Planejamento Urbano de Bauru fundamentado com pessoas comprometidas com a cidade. Se, por fim, não houver esse comprometimento do modelo de Instituto de Planejamento Urbano de Bauru, o mesmo terá a função funerária.
Por mais difícil que sejam os problemas desse instituto, eles não estão em pagar os salários, mas sim fazê-lo funcionar. Vide Jane Jacobs, que publicou ?Morte e Vida das Grandes Cidades Norte-americanas?, abalando os princípios do urbanismo e do planejamento urbano.
A autora é arquiteta e urbanista, especialista em geoprocessamento pela UFSCar de São Carlos e membro da Diretoria do IAB Bauru gestão 2014/2016. e-mail: contato@arquitetaandreiaortolani.com.br