João Rosan |
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Campanha para o enfrentamento foi lançada na tarde de ontem no Café com Política do JC |
Os casos de abusos sexuais contra crianças e jovens tiveram um aumento considerável este ano em Bauru. Somente no primeiro semestre de 2014, 75 vítimas já passaram por acompanhamento em órgãos públicos. O número representa quase 80% do registrado no ano passado inteiro, quando foram 95 casos.
Os dados foram divulgados ontem pela Secretaria Municipal do Bem-Estar Social (Sebes), durante o lançamento da campanha nacional “Enfrentamento ao Abuso e Exploração Sexual de Crianças e Adolescentes”, no Café com Política do JC.
Com o nome “Faça Bonito – Proteja Nossas Crianças e Adolescentes”, a campanha visa exatamente conter as estatísticas preocupantes fornecidas pelo Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas). De acordo com a avalição da titular da Sebes, Darlene Tendolo, a variação na estatística se deve ao processo de trabalho informativo ao longo do tempo.
“Nós promovemos ações para incentivar a denúncia desde 2009, porém, demora um pouco até chegar na casa das pessoas. Nem todo mundo tem acesso à informação e isso contribuiu para esses números”, explica.
Já na questão do aumento preocupante nos casos deste ano, Tendolo atribuiu ao “fenômeno da evidência”. “Podemos associar à Copa do Mundo. Quando existe um evento mundial, os olhos de todos estão muito atentos. Isso se torna visível. Professores observam mais em salas de aula e a sociedade também. Quando percebem qualquer atitude diferente da criança ou jovem, vão atrás para inibir. É quando ocorre a denúncia”, acredita.
Dentro de casa
Um dos dados divulgados pelo Creas/Sebes torna o abuso sexual contra crianças e jovens ainda mais alarmante. Cerca de 80% da violência sexual é praticada por membros da própria família ou pessoa conhecida e confiável. Já 75% dos casos relatados são entre pai e filho.
Embora a pesquisa – que é de âmbito nacional – aponte que a maior parte dos agressores são os pais biológicos, Tendolo relata outra realidade em Bauru. “No nosso município, ainda é mais a questão do padrasto, que é de íntimo da família, mas não necessariamente o pai”, disse.
Não é o carinho!
O fato, contudo, torna o ato de denúncia ainda mais distante. Isso se deve porque, nos casos que não chega a acontecer a penetração, as crianças encaram a ação como demonstração de carinho.
“É algo muito sério. Quando o abuso fica nas carícias, a criança pode entender aquilo como uma demonstração de afeto do pai e o abuso nem chega ao consentimento da mãe ou de outro familiar. Além das constantes ameaças feitas pelo agressor para inibir a denúncia”, lamenta.
A campanha é promovida pela Prefeitura Municipal de Bauru, através da Sebes, em parceria com o Conselho Municipal dos Direitos da Criança e do Adolescente (Creas), e com o apoio do Sindicato dos Químicos, da Central Geral dos Trabalhadores do Brasil, Sindicato dos Empregados da Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos e Similares de Bauru e Região, Concessionária de Auto Raposo Tavares (Cart).
Este ano já houve caso de exploração sexual
Além da questão do abuso, há também da exploração sexual. Um caso desses foi registrado em Bauru este ano.
“Temos casos de conhecimento nacional, que trazem consequências danosas às crianças. Em Bauru, um foi registrado, de pessoas que colocam adolescentes ou crianças para um evento e acabam seduzindo para outro momento. O caso preocupa bastante”, disse Darlene Tendolo.
Para a polícia, denúncias crescem com as campanhas
Entre as contribuições da campanha, a mais visada no momento é o incentivo às famílias em denunciarem os casos de abuso dentro de casa. Para a delegada Priscila Bianchini, responsável pela divisão de crimes sexuais na Central de Polícia Judiciária (CPJ), a ação incentivou as vítimas a procurarem a polícia.
“A veiculação de campanhas e informações favorece a polícia. Ninguém aguenta mais a impunidade da violência sexual contra crianças e adolescentes”, relata.
A delegada lamenta que ainda existem pessoas que tentam resolver o problema sem auxílio das autoridades. “Há famílias que optam por solucionar o caso dentro de casa, por uma questão de preservação do filho e até mesmo do acusado. É conhecido por nós como ‘cifras negras’, que são os casos que não chegam até o conhecimento da polícia”.
Presente
O presente nem sempre é bem-vindo. É o que observa a titular da Sebes, Darlene Tendolo. “Antigamente, os pais não aceitavam que a criança chegasse em casa com um presente. Hoje, porém, é normal a falta de questionamento. Isso pode ser indício de abuso sexual. Os pais precisam voltar a ter toda essa atenção”, alerta.
Minha culpa?
Os danos psicológicos provocados pelos abusos variam bastante. Um dos piores é a autoculpa. Darlene Tendolo, da Sebes, explica que a pessoa passa a acreditar que o abuso ocorreu por causa dela. “ Vítimas se julgam culpadas: ‘aconteceu tudo isso por minha culpa’. E a pessoa fica presa à situação e não denuncia. O pior: prejudica muito o seu psicológico”, relata.
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