Em que pese o exagero das extrapolações sobre os efeitos dos jogos do campeonato mundial de futebol sobre o humor da sociedade brasileira, o fato é que não há nenhuma correspondência profunda entre os resultados esportivos (positivos, na maioria) e a realidade de nossa economia. Não foi assim no passado, não é no presente e não será no futuro. Dessa forma, é uma grande bobagem imaginar que haverá um "aumento de frustrações" por causa do fraco crescimento do PIB, "se perdermos a Copa"... Até porque: 1º) não existe esse sentimento na população trabalhadora; 2º) Não vamos perder; 3º) O torcedor está "vacinado", desde o tal "maracanazzo" de 1950. Mesmo na questão inflacionária, recente levantamento do Datafolha revelou um número menor de pessoas (em relação à pesquisa anterior) que espera que a inflação vá crescer. Então, por que apostar no oposto?
O Banco Central trabalha para manter a taxa de inflação em torno da "meta" estabelecida pelo governo, que é de 4,5% ao ano, com uma banda de tolerância de 2 pontos percentuais para cima ou para baixo (portanto, entre 2,5% e 6,5%) para acomodar flutuações de curto prazo advindas de emergências dificilmente previsíveis ou impossíveis de serem contornadas, como, por exemplo, fenômenos climáticos adversos. Qual é a situação atual? Os fatos são os seguintes: 1º) no período 2000-2013, a taxa de inflação média registrada foi de 6,5% (o limite superior da banda de tolerância). Não há desculpa para tal laxismo e 2º) a taxa de inflação acumulada nos últimos 12 meses terminados em março de 2014 é de 6,15%, a dos serviços de 9,1% e a da alimentação 7,1% e, há preços reprimidos. E, 3º) estamos num daqueles eventos imprevisíveis e incontornáveis no momento em que há pouco espaço livre na banda de tolerância: uma seca de proporções catastróficas afeta os preços agrícolas e põe em dúvida o suprimento de água e o custo da energia hidráulica. Não é, portanto, sem razão que a sociedade manifesta sua preocupação, uma vez que a probabilidade da taxa de inflação superar o limite de tolerância superiores da banda é muito alta.
É preciso, entretanto, relativiza-la: 1º) porque a pressão sobre os preços de alimentos tende a acomodar-se naturalmente dentro do ano (já há sinais dessa acomodação); 2º) porque como o Banco Central afirmou na sua Ata da reunião do Copom de 1-2/4 num longo parágrafo (32) que já aumentamos a taxa de juro básica em 375 pontos desde de abril de 2013 e seus efeitos "tem se propagado normalmente por intermédio dos principais canais de transmissão e assim tendem a continuar nos próximos trimestes; 3º) porque o aumento do preço da energia (elétrica e petróleo) vai sendo adiado e não terá efeito em 2014 e 4º) porque como disse o presidente Tombini, não há metas intermediárias dentro do ano calendário.
Vamos manter a inflação dentro de nossa banda pois nosso sistema é estabelecido para atingir o objetivo no fim do ano". Provavelmente, será obtido.
O autor é economista, ex-ministro do Planejamento