Com o intuito de tornar acessível a arte brasileira, “fomentando as múltiplas interpretações e sentidos”, o Museu da Língua Portuguesa recebe, pela primeira vez, uma exposição de artes plásticas. Trata-se de “Mostra Narrativas Poéticas” - Coleção Santander Brasil.
A exposição, com curadoria geral assinada por Helena Severo, teve início no dia 25 de março e seguirá até 20 de julho no bairro da Luz, em São Paulo. O JC foi coneferir de perto.
São Paulo é a quarta cidade a receber a mostra, que iniciou sua itinerância em 2013 na cidade de Porto Alegre, passando por Brasília e em seguida Belo Horizonte, tendo sido vista por mais de 100 mil pessoas.
A coleção faz parte do acervo do Banco Santander Brasil, que foi formado a partir da aquisição de outros bancos pelo grupo, e reúne obras de artistas brasileiros, ou com algum tipo de relação com o Brasil, a partir do século XVII.
Estão expostas 58 obras de 38 artistas (brasileiros ou imigrantes), acompanhadas de 46 fragmentos de poemas de 23 poetas. Entre os artistas plásticos estão nomes como Cândido Portinari, Emiliano Di Cavalcanti, Alfredo Volpi e Tomie Ohtake, além de expoentes contemporâneos, como Tuca Reinés, Fernanda Rappa e Renata de Bonis.
Já dentre os artistas literários destacam-se João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade e Vinícius de Moraes. Especialmente para compor a narrativa de São Paulo, foram selecionados poemas de Arnaldo Antunes e Waly Salomão.
Convergência
Regada pela diversidade, a exposição traça um paralelo entre as artes plásticas, como pinturas, gravuras, esculturas e fotografias, e trechos de poemas da literatura brasileira, dando destaque ao modernismo. Segundo os organizadores, a ideia é que texto e imagem conversem, convidando o público a soltar a imaginação e a mergulhar em um diálogo entre arte e alma. De fato, o que se vê no museu é que o projeto expográfico foi planejado de forma a provocar o espectador causando-lhe sensações. Um exemplo disso são os trechos de poemas colocados em letras vazadas no branco, pintado nas janelas do museu.
Uma forma metafórica de fazer com que o público, ao se esforçar para ler, perceba a arte, a si mesmo, e o mundo através da janela. O projeto criado por Marcelo Dantasse e Suzane Queiroz, traz particularidades para a exposição em São Paulo, como quatro obras táteis em alto relevo, para deficientes visuais.
As obras escolhidas, replicadas em resina, foram Figura, de Milton da Costa; Paisagem, de Francisco Rebolo; Baile no Campo, de Cícero Dias, e Série Amazônica, de Ivan Serpa.
Os organizadores da exposição buscam, “além do diálogo entre arte e poesia, educar jovens e crianças para serem consumidores de arte, provocando-os a deixar de lado a compreensão (ou a falta dela) pelo óbvio e partir para o canal da emoção e dos sentidos, linguas nativas do processo artístico.”
“Essa mostra promove o diálogo entre gênios das artes plásticas e da literatura nacional”, resume, empolgado, o diretor do museu, Antonio Carlos de Moraes Sartini.
Um poema exposto
Mais ou menos em ponto
(Paulo Leminski)
Condenado a ser exato,
quem dera poder ser vago,
fogo fátuo sobre um lago,
ludibriando igualmente
quem voa, quem nada, quem mente,
mosquito, sapo, serpente.
Condenado a ser exato,
por um tempo escasso,
um tempo sem tempo
como se fosse o espaço,
exato me surpreendo,
losango, metro, compasso,
o que não quero, querendo.
Serviço
Museu da Língua Portuguesa. Endereço: Estação da Luz, praça da Luz, s/n, Centro - São Paulo. Telefone: (11) 3322-0080. E-mail: museu@museulp.org.br. Ingressos: R$ 6 e R$ 3 (meia entrada). Entrada gratuita aos sábados. Terça a domingo, das 10h às 18h (bilheteria até 17h) Nas últimas terças do mês, museu aberto até 22h.