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As joaninhas se aglomeraram atraídas pelos feromônios para o acasalamento! |
As pessoas não gostam muito de ouvir a famosa frase de Freud: “o que move o mundo é sexo e dinheiro!” Nos animais, pensei, não se tem dinheiro envolvido, restando apenas sexo para perpetuar a espécie. A vida consciente, graças ao pensar, fez o homem achar prazeroso o sexo não relacionado à procriação. Na vida, e as novelas demonstram, há várias artimanhas para se ter sexo e dinheiro.
A natureza também tem suas artimanhas como prover partes que se assemelham a órgãos genitais de insetos nas flores. Enganados pela forma e beleza, praticam o sexo com um vegetal e sujam seus pezinhos com o pólen. Em novas investidas sexuais, os pezinhos sujos de pólen “fecundam” uma outra planta: os dois vegetais trocaram e misturaram seus genes. A polinização aumenta a produtividade agrícola. A redução dos insetos, especialmente abelhas, colocam em risco a produção mundial de alimentos e seus negócios. Puxa: onde se tinha apenas sexo, agora também tem dinheiro! Esse Freud!
Antes das chuvas, os boias frias da fazenda eram convocados a coletar besouros que caíam na plantação de cana depois de revoarem em nuvens exibindo-se em céus coloridos do amanhecer e entardecer. Catavam aleatoriamente os besouros, mas um velho senhor pegava apenas algumas fêmeas e depois de colocá-las no bolso da calça, sentava debaixo da árvore e esperava os machos chegarem atraídos pelo cheiro exalado pelas fêmeas e os colocavam no balde.
Aquele senhor sabia muito sobre a vida, poupava-se graças aos feromônios liberados para atrair parceiros. São substâncias voláteis que permeiam no ar e humanos não sentem. No suor humano temos feromônios, mas não sabemos aproveitar-se disto na atração de parceiros. Preferimos ir à loja de feromônios artificiais ou de perfumes: presentear perfume é como oferecer feromônio ao outro!
A partir desta observação na fazenda de um amigo no município paulista de Olímpia, José Mauricio Simões Bento, ainda estudante em 1990, iniciou o processo que resultou no primeiro feromônio comercial brasileiro a partir da substância exalada pelas fêmeas do besouro Migdolus fryanus para atrair machos ao acasalamento. Não se conseguia controlar esta praga que chega atingir até 5m de profundidade, atacam as raízes e causa sérios prejuízos à cana.
Sob orientação de professores, Bento conseguiu amostras do feromônio para identificá-lo e enviou-as a um químico brasileiro que trabalhava no Japão, Walter Leal, que o isolou e sintetizou. Até hoje o feromônio é utilizado em armadilhas nos canaviais brasileiros. Hoje, Bento comanda uma equipe de 25 pessoas em seu laboratório na Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz da USP, incluindo-se estrangeiros. Mas a patente ficou sendo japonesa.
Os feromônios permitem o controle da mariposa bicho-furão que coloca seus ovos nas laranjas, eclodem, penetram e levam ao apodrecimento e queda. Isolado e sintetizado no Japão, o feromônio é colocado em pastilhas grudadas em pequenas armadilhas de papel adesivo a cada 10 hectares ou 2 a 3 mil plantas. Se no outro dia estiverem aderidas apenas 1 a 5 insetos significa que não há necessidade em pulverizar a lavoura; entre 6 a 8 requer observar mais uma semana e caso tenha mais que 9, aplica-se controle químico imediato.
Os feromônios tem a ver com sexo para a perpetuação da espécie de mariposas, purgões e besouros. Ninguém sabia, mas na “PSLoS One” um trabalho do grupo da Esalq repercutiu na Nature e Science e revelou: antes de ventos fortes e chuvas os insetos param ou reduzem sua atividade sexual ao diminuírem a secreção dos feromônios nestas condições atmosféricas que podem aumentar muito a mortalidade e por em risco a espécie.
As plantas também lançam substâncias voláteis tipo feromônios. Como assim? Lançam no ar feromônios que atraem sexualmente os insetos inimigos para espantar aqueles que depositariam seus ovos ou atuariam como uma de suas pragas! Cada um usa de artimanhas como pode para se defender e sobreviver, mas parece maquiavélico.
Fiquei horas pensando: ... esse jogo de sedução dos insetos me parece tão humano! Numa festa parece que uns tem mais feromônios que outros. E você, produz muito ou pouco: o que achas?
Alberto Consolaro é?professor titular da USP - Bauru. Escreve todas as segundas-feiras no JC.
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