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Escultores e a ?massa?

Graziele Couruzzi
| Tempo de leitura: 2 min

O ser humano é um bolinho de massa branca, então se esculpe e pinta. Eu sou professora de teatro e ministro aulas para crianças da assistência social. Sendo assim, sou uma escultora e eles a "massa". A diferença é que a massa já chega pra mim fora do ponto, ela fala sem concordância, escreve como fala e lê como... bom, ela muitas vezes não lê.

Isso porque viveu alguns 7 ou 12 anos manuseada por outros escultores. Alguns chamam-se pais, outros professores e um outro governo. Digo que é quase uma massa que não sabe sua raça, se confunde com seres sem racionalidade, isso porque não foi ensinada a raciocinar, defeito hereditário. Então, ela vive mais ou menos assim, para interpretar cenas do cotidiano interpretam em beco de drogas, o dia que o pai foi preso, como agem os namorados da mãe, entre outras. Evidente que atores iniciantes se confundem em passar situações para a plateia, então as vezes não compreendo bem a ação e preciso que me expliquem coisas do tipo "estávamos bolando a maconha tia".

Mas, às vezes, elas sentam-se em roda e em um momento natural da aula de teatro para falar de si, falam bastante, compartilham o dia em que a mãe se matou porque não aguentava mais apanhar do pai, quando a mãe cheirou no prato e por isso pensa em crescer e matá-la e falam que sabem de coisas de adulto porque assistem relações sexuais dentro de casa, às vezes, choram ou se agridem.

E eu sou mais uma vez uma escultora multilada. A diferença é que em mim ainda dói, maldita mania que tenho de não me acostumar com o que não me dá prazer. Minhas massinhas são empurradas por uma progressão continuada, amparadas por bolsas "sobrevivência" e pintadinhas de verde e amarelo. Logo outras massas maiores de "olhos vendados" vão confirmar no botão verde quem vai modelá-las. São massinhas com modelos de pregos e eu acrescento em todos os ladinhos para transformá-las em martelos. Injeto arte no meio de drogas, sexo, violência e muita ignorância. No fim do dia me sinto suada, sugada, desamparada, impotente e cansada, esculpindo a massa dura e rígida de um sistema falido.

A autora é atriz e pedagoga

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