A proteção para preservação e redução de atropelamentos envolvendo animais ao longo de rodovias pede a formação de plano com ações multigovernamentais. Esta foi a principal vertente discutida ontem em audiência pública no 38º Congresso da Sociedade de Zoológicos e Aquários do Brasil, evento que está sendo realizado no hotel Obeid Plaza em Bauru.
A instalação de passagens de fauna associadas a cercas nos trechos com maior potencial de atropelamento, a eliminação de barreiras nos canteiros centrais nos pontos identificados como críticos, o mapeamento e intervenção em fragmentos florestais urbanos utilizados como “caminhos de fuga” pelos animais e a eliminação de rotas para busca de alimentos em função da invasão do homem com edificações próximas de áreas antes preservadas são alguns dos elementos que precisam funcionar em um sistema que envolva diferentes órgãos.
Além disso, ficou claro que os governos municipal e estadual precisam articular convênios e atuação entre órgãos municipais, concessionárias de rodovias e zoológicos. Mas a audiência pública também levantou que, em razão da desarticulação governamental no combate à mortandade por animais em estradas decorrentes de acidentes, os zoológicos estão sendo utilizados como depósitos de animais machucados.
Outro ponto é o descarte ilegal de carcaças, que também tem de ser combatido.
Mestrado
A bióloga bauruense com mestrado pela Universidade de São Paulo (USP), Fernanda Abra, consultora ambiental da Prime Engenharia, apresentou seu trabalho de monitoramento de passagens inferiores de fauna.
A pesquisa, que envolveu estágio também nos Estados Unidos para verificar o que está sendo feito lá fora nesta temática, foi realizada em trecho com dez passagens de fauna instalados em um trajeto de 50 quilômetros na rodovia Dois Córregos-Brotas-Itirapina. A concessão em pista dupla é da Centrovias.
Foram 96 amostragens acompanhadas nos dez pontos da rodovia durante o período de um ano. “Eu tive a identificação de 800 travessias de animais nesses pontos, que são passagens instaladas por baixo da pista. Desse total de registros, mais de 700 foram de mamíferos sendo o maior volume de capivaras e também de lobo-guará, animal que está na lista de extinção”, conta Abra.
Os métodos utilizados foram os de pegadas e “armadilhas” de vídeo. É a primeira pesquisa no gênero no País que utiliza monitoramento por vídeo. “O vídeo tem um sensor que capta a presença dos animais dentro da passagem. Eu podia ver o dia a hora e quantidade de animais que usavam aquela passagem”, menciona.
As capivaras fizeram 435 travessias no ponto pesquisado no mestrado. “Esse dado é fundamental para a segurança do usuário, de um lado, porque as capivaras são animais de grande porte e abundantes e lindeiros às rodovias e que podem causar acidentes sérios”, pondera.
Mas a pesquisa também identifica que as passagens de fauna nas rodovias são essenciais para o controle da biodiversidade. “Da mesma forma, isso demonstra a necessidade de um plano para a conservação da biodiversidade nesses pontos. Na pesquisa, identificamos farta população de lobos-guarás, que estão ameaçados de extinção, além da segurança do usuário para evitar atropelamentos”, informa a bióloga.
O que falta?
A tese de mestrado de Fernanda Abra identifica que falta aos órgãos públicos combinar medidas para garantir a segurança do usuário e a proteção dos animais. “A associação de medidas é que pode resultar no sucesso. A pesquisa identifica a redução de acidentes com animais nos pontos que receberam passagens de fauna”, posiciona.
Faltam outras ações como verificar o tamanho ideal da cerca nos pontos das passagens, se há sinalização adequada, se há educação para o usuário nas rodovias, o sistema de socorro e tratamento dos animais atropelados e a definição de centros regionais para assumir esse serviço. “Hoje, os zoológicos estão funcionando como depósito de bichos porque não há definição de quem deve tratar esses animais machucados. Um convênio poderia ser articulado nesse sentido, envolvendo o Estado para os trechos não concessionados e as concessionárias para os demais”, cita Abra.
Os contratos estabelecem que cabe à concessionária as despesas decorrentes de ocorrências nos trechos sob sua responsabilidade.
Sobre a repetição de episódios com a presença de animais em áreas urbanas próximas de vegetação, a bióloga Fernanda Abra pondera que, além do controle para preservação e isolamento desses fragmentos de mata, o poder público deve intervir para evitar que os bichos busquem alimentação fora de seu habitat.
“Os lixos urbanos, como restos de alimentos e a não preservação desses fragmentos com a proximidade da urbanização, leva os animais a procurarem esses locais em busca de comida. Os animais, sobretudo os silvestres, acabam se transformando em uma espécie de ‘ratos’, vítimas da intervenção do homem”, situa.
Além dessas medidas, em países como os EUA, as rodovias mais movimentadas e com contingente identificado de animais utilizam sistema de detecção de bichos em pontos estratégicos, de maior movimentação rotineira dos bichos.
“Isso exige pesquisa na identificação dessa fauna, dos pontos críticos e dos pontos de detecção. Os usuários da rodovia são avisados eletronicamente por painéis eletrônicos e são advertidos para a redução de velocidade nesses pontos para evitar atropelamento. Essa medida associada às demais, de controle, reduziram os atropelamentos em até 80%”.