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No Rio de Janeiro

Marcondes Serotini Filho
| Tempo de leitura: 3 min

Levei anos pra voltar ao Rio de Janeiro, após ter passado uma semana nos idos de 1976, no auge dos meus 13 anos. Naquela época, no famoso e tradicional Hotel Flórida, na praia do Flamengo, construía-se o metrô e tudo era festa pra mim.

No Canecão estava em cartaz a peça Deus lhe Pague, com Walmor Chagas e havia iminência de proibição pelos militares, que viviam censurando e proibindo peças de teatro consideradas subversivas. Dentre as trapalhadas, os milicos invadiram um teatro e diziam que queria prender um tal de Brecht, autor da peça encenada que havia morrido há décadas. Este ambiente visto de agora, de repressão e ditadura militar, não se refletia no dia a dia da excursão da Escola de Comércio, que se realizava anualmente como parte da formatura dos então Técnicos em Contabilidade aptos a exercer sua profissão, não sem antes conhecer a paisagem carioca.

Cristo Redentor, bondinho do Pão de Açúcar, Leblon, Cabo Frio, Jardim Botânico, quarto de Getúlio no Palácio do Catete intacto e toda sorte de pontos turísticos foram visitados, muitos que até hoje não saem da memória. A lembrança do ambulante na praia gritando "limão e mate", topless e peladas na areia são detalhes que marcaram o menino do interior que tinha dificuldades em entender o que era "galeto na brasa" e pizza "brotinho".

Agora de volta à Cidade Maravilhosa, piso nas pedras portuguesas, colares em preto e branco a circundar o pescoço da praia de Copacabana, princesinha do mar. Uma sensação de inclusão cultural e cívica invade quem aqui vem. Lugar que já foi capital do Brasil, acomoda inúmeros museus, consulados e embaixadas que deixam transparecer sua majestade eterna.

A fleugma das famílias quatrocentonas da zona sul, que não perdem a aura de nobreza apesar do motivo desta superioridade já ter ido por água abaixo de há muito. O reinado se dá nos restaurantes estilosos e nos cafés clássicos, que aceitam esta demonstração necessária de quem já foi rei e vive como se ainda fosse.

A força da iniquidade e da contravenção destruiu o Rio de outrora, cujos políticos tiveram que se aliar a essas forças em busca de poder e voto, entregando toda uma história à sanha de bandidos organizados e abundantes, nas favelas e nos palácios.

Além disso, uma sequência de maus administradores tentou desmantelar o seu conjunto mais que perfeito, que une o urbano à natureza, com a sorte de ter sido também a capital de Portugal, encravando a Europa no seu seio através da vinda da Família Real Portuguesa no Brasil, fugida da sanha de Napoleão Bonaparte.

Atrás o morro, à frente o mar, emparedando séculos de samba, poder e beleza, de onde surgiram as mais belas páginas da nossa arte. É aqui que o Brasil é mais Brasil e onde vejo uma força extraordinária que nunca vai permitir que este brilho e esta predestinação para o sucesso, no palco da alegria, percam seu viço e sua glória.

O autor é ortodontista, jornalista e escritor

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