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Semáforos em excesso

Archimedes Raia Jr.
| Tempo de leitura: 3 min


A excelente matéria "De olho no sinal", publicada no JC em 11/5, pela jornalista Ana Paula Pessoto, instiga a apresentação de algumas reflexões. A colocação de semáforos é um recurso que deve ser utilizado quando for estritamente necessário e devidamente justificado. A sua correta implantação pode proporcionar benefícios na operação de trânsito. Porém, quando usada de forma equivocada, pode trazer impactos negativos no desempenho e segurança do trânsito. Alguns exemplos são: aumento na ocorrência de acidentes; prescrição de atrasos excessivos aos usuários; instigação ao desrespeito à sinalização devido à ociosidade na operação; descrença em relação à sinalização; e custos adicionais aos cofres públicos.

Bauru, apesar de sua beleza, pujança e liderança regional, apresenta seríssimos problemas de infraestrutura viária. O sistema viário estrutural de uma cidade deve ser composto por vias de trânsito rápido e arteriais. A de trânsito rápido é aquela caracterizada por acessos especiais com livre trânsito, sem interseções em nível e acessibilidade direta aos lotes lindeiros, e sem travessia de pedestres em nível. A arterial caracteriza-se por interseções em nível, geralmente controlada por semáforo, com acessibilidade aos lotes lindeiros e às vias secundárias e locais, possibilitando o trânsito entre as grandes regiões da cidade.

Bauru não possui nenhuma via urbana de trânsito rápido e suas vias arteriais possuem baixa capacidade. Para se entender o impacto desta deficiência, pode-se recorrer ao exemplo de uma bacia hidrográfica. O fluxo de águas em uma bacia tende a escorrer para os seus rios principais, dando vazão ao grande fluxo. Quando a afluência de águas da chuva supera a capacidade dos rios principais, há um transbordamento e a água passa a ocupar áreas adjacentes, causando alagamentos e comprometendo os rios afluentes.

No trânsito ocorre situação semelhante. Na falta de vias de trânsito rápido, as responsáveis para dar vazão ao fluxo pesado acabam sendo as vias arteriais. No caso local, as vias arteriais de maior capacidade dispõem apenas duas faixas por sentido, insuficientes para dar vazão ao tráfego maior. Com isto, o tráfego excedente avança, "alaga" e sobrecarrega as vias coletoras, de hierarquia inferior. Esse "alagamento" é de grandes proporções, com as vias coletoras recebendo fluxos elevados, principalmente, nos horários de pico. Este fato implica na necessidade de implantação de semáforos em quantidades muito além do que seria normal.

Para se ter uma ideia, as cidades brasileiras com mais de 60 mil habitantes têm implantados 32 mil semáforos, com média de 0,3 interseções semaforizadas por mil habitantes. Adotando-se esta analogia, Bauru deveria ter 108 semáforos, quando na verdade possui 183. A sua taxa de semaforização é de 0,5 interseções por mil habitantes, 66% maior que a média nacional.

Uma melhoria significativa no tráfego se daria com a construção de vias de trânsito rápido. Isto, no entanto, é utópico, pois não há recursos suficientes nem para concluir apenas uma das alças do "viaduto que não acaba". Urge repensar a função de algumas vias coletoras, que poderiam funcionar como arteriais, pois a cidade possui algumas delas com largura suficiente para a nova função. A Assenag-Associação dos Engenheiros, Arquitetos e Agrônomos de Bauru, através de sua Diretoria de Mobilidade, tem manifestado preocupações a este respeito e promovido debates no sentido de oferecer alternativas para a mobilidade urbana. É esperar para ver. O que está ruim pode ficar ainda pior, se nada for feito.

O autor é professor de engenharia de tráfego da UFSCar, diretor de Mobilidade da Assenag e articulista do JC.

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