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O Brasil, a Copa e a crítica

Luís Victorelli
| Tempo de leitura: 2 min

Por mais estranho que pareça, a maior das conquistas a se comemorar com a Copa do Mundo de Futebol realizada em nosso país, num efervescente ano de eleições, além do bem-vindo título de campeão, é o exercício da crítica motivada pelo próprio evento. Realizar o mais empolgante, esperado e principal espetáculo esportivo do Planeta, em uma única modalidade, não passa incólume. Ainda mais quando, em tese, numa condição de esfuziante alegria, o brasileiro, amante do esporte, tenderia a manter-se no estado de coisas. Do lado oposto, um povo triste e frustrado buscaria mudanças.

Então, uma Copa das Copas, e se ainda vier com a taça, ponto, ou melhor, voto, para quem está na cadeira da situação. Se pior, melhores chances para a oposição. Embora a banda nem sempre toca assim. Em 2002, o Brasil foi campeão e FHC perdeu; na Alemanha, mesmo com o fracasso da seleção, Lula se reelege.

O que há de diferente agora é que a Copa é aqui! Fracassos dentro ou fora do gramado podem ser vistos, não como uma derrota do time do Felipão, da CBF ou do comitê organizador, mas uma deficiência do País. E há quem aposte nisso.

Um megaevento como este é uma excelente vitrine para expor, com boas intenções ou não, o quanto estamos longe de ser uma nação verdadeiramente campeã. Isso é da democracia, e é bom. Mas, resguardados os vergonhosos atrasos e os custos duvidosos das obras, entre outras trapalhadas e tragédias, quem tem um mínimo da salutar informação sabe também que não é justo depositar toda essa carga de culpa, por nossas históricas mazelas, na conta da Copa ou do governo que a trouxe para cá.

No minguar da ditadura conta-se que um João, todo poderoso da Fifa, teria oferecido a outro João, ainda mais poderoso, a Copa no Brasil. O general teria respondido: "Você conhece uma favela no Rio de Janeiro? Você já viu a seca do nordeste? E você acha que eu vou gastar dinheiro com estádio de futebol?".

Pois bem, não tivemos a Copa! Nem os hospitais, nem as escolas que precisávamos. A seca continuou castigando o nordestino e as favelas só cresceram. E nem podíamos reclamar. Então, anote aí! O que faz um país evoluir, além de representantes legítimos, éticos e com vontade política para isso, não é a força, o discurso reacionário ou a retórica populista, é a crítica. Saudável.

Não sei bem se saudável ou construtiva são as melhores formas de adjetivá-la, mas quero separá-la dos arrotos de raiva e de ódio, que em nada contribuem para uma nação melhor. Que essa crítica venha lúcida, objetiva, altiva, imbuída de um espírito cidadão. Se não dá para ser isenta, que pelo menos se expresse de forma transparente. Assim, conhecendo qual o lado melhor de chutar a bola, poderemos torcer sem medo pelo Brasil. Seja em que campo for.

O autor é jornalista

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