Forças curdas iraquianas assumiram o controle da cidade petrolífera de Kirkuk nesta quinta-feira (12), após tropas do governo terem abandonado seus postos frente ao bem-sucedido avanço de rebeldes sunitas em direção a Bagdá, que ameaça o futuro do Iraque como um Estado unificado.
Em Mosul, no norte, militantes sunitas do grupo Estado Islâmico do Iraque e o Levante (EIIL) realizaram ontem um desfile de veículos militares norte-americanos tomados após a derrocada do Exército iraquiano, dois dias depois de os combatentes terem saído do deserto e ocupado a segunda maior cidade do país.
Dois helicópteros, também tomados pelo militantes, sobrevoavam a área, disseram testemunhas, aparentemente na primeira vez em que o grupo militante obteve tal aeronave em anos de insurgência em ambos os lados da fronteira Iraque-Síria.
Mais tarde, a Força Aérea iraquiana bombardeou posições de insurgentes dentro e ao redor de Mosul, de acordo com imagens exibidas pela televisão estatal do Iraque.
Mais ao sul, combatentes ampliaram seu rápido avanço para cidades próximas da capital, Bagdá, algumas a apenas uma hora de carro. Enquanto isso, na capital, os xiitas estão se preparando para uma potencial repetição do banho de sangue étnico e sectário ocorrido em 2006-2007.
Caminhões carregando voluntários xiitas em uniformes avançavam rumo às linhas de frente para defender a capital.
Novo grupo
O EIIL (Estado Islâmico do Iraque e do Levante), grupo que tomou na terça-feira o controle de Mossul, quer estabelecer um califado islâmico no Iraque e na região do Levante - que inclui territórios de Síria e Líbano.
Caso fortaleçam suas posições nas fronteiras norte e leste da Síria e no oeste do Iraque, a organização poderá na prática apagar essas linhas e expandir sua aplicação rigorosa da lei islâmica.
O território hoje sob influência dos islamitas inclui Deir Ezzor, na Síria, e as províncias iraquianas de Anbar e Nínive (onde fica Mossul), facilitando a circulação de armas e militantes.
Os recentes avanços do EIIL, incluindo a guerra na Síria, aterrorizaram tanto os governos quanto os outros grupos insurgentes da região. Também demonstram a rápida evolução da organização, cada vez mais próxima de realizar seu objetivo.
Os sucessos também preocupam a comunidade internacional. Antes considerado uma franquia da Al-Qaeda no Iraque, o grupo vem ganhando respeito e pode se tornar, em breve, uma ameaça mais séria à estabilidade do Oriente Médio. Não está claro de onde vem o financiamento, com suspeitas de doações de grandes quantias, inclusive de alguns governos da região.
HISTÓRICO
O EIIL, que tem hoje cerca de 5.000 militantes, foi formado a partir de milícias criadas durante a invasão americana no Iraque, em 2003. Inicialmente chamado de Al-Qaeda no Iraque, tinha como líder Abu Musab al-Zarqawi, morto em 2006.
O principal nome do grupo é Abu Bakr al-Baghdadi. Diversos de seus militantes são “jihadistas” estrangeiros, incluindo americanos e europeus. Não há registro de brasileiros.
Descontente com os métodos do EIIL, a Al-Qaeda “deserdou” o grupo em 2013.
Obama
O presidente americano, Barack Obama, disse ontem que o Iraque “vai precisar de ajuda” e que nenhuma opção está descartada, mas seu porta-voz, Jay Carney, disse que o envio de tropas para luta em solo “não está contemplado”.
A reação americana se deu no dia em que os conflitos no Iraque se agravaram.
Segundo o jornal “New York Times”, Maliki teria pedido confidencialmente a Obama para autorizar ataques, possivelmente usando drones, contra essas milícias. Obama, que tem recorrido a ataques similares no Iêmen e no Paquistão, teria se recusado a voltar ao Iraque e a trabalhar com Maliki, segundo fontes ouvidas pelo jornal.