Articulistas

Graças a você

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Quando trabalhei da editora Alto Astral, costumava azucrinar recém-chegados com críticas de mentirinha. Só para testar reações. "Escuta, e esse Chico Buarque, hein? O cara é uma farsa. Fraco. Canta a questão da terra, mas mora em Paris. Até hoje só fez uma música boa: "Pedro Pedreiro", e no começo da carreira. Não gosto. Você gosta?"

Como diria Diego Ramos, que lá comigo trabalhou, era algo "traquinas" de se fazer. Até porque falava em tom grave, quase impositivo. Se alguém um dia acreditou, tenho espaço nobre aqui no JC para corrigir: Chico Buarque de Hollanda é o maior nome da música popular brasileira.

Ele, que na quinta-feira, 19-6-2014, chegará aos 70 anos, edificou uma obra além da canção e dos livros. Sua construção é social, afetiva, política e fundamental. Nem vou discutir episódios recentes sobre a polêmica das biografias, até porque já tratei do tema aqui. Falo do todo, meu caro amigo. Puro talento ? sensível e consciente.

Especialmente curioso observar como o mito Chico Buarque gosta de ser despojado. Creio até que adota hábitos simples no cotidiano, ainda que aprecie Paris. E daí? O carioca Chico é do Rio, da França, de Bauru, de São Paulo.

Aliás, pela riqueza descritiva da época, vale reproduzir aqui o que publicou o extinto "Jornal da Tarde" em 29 de dezembro de 1967: "Chico Buarque de Hollanda é o mais novo cidadão paulistano. Nasceu para cidadania ontem à tarde já fazendo piada com a falta de charuto para comemorar: ?Ô pai, onde estão os charutos? Não é normal que se ofereça charutos quando nasce um cidadão??, disse êle ao dr. Sérgio Buarque de Hollanda."

"O dr. Sérgio não era um pai como os outros no dia do nascimento de mais um cidadão: estava tranquilo e sorridente. Mas, como os outros pais, fumou bastante. Também não contou vantagem do filho, mesmo porque não teve tempo: a beleza de filho que ele tem, os outros é que contaram. E da tribuna da Câmara Municipal para todo mundo ouvir."

"Na calçada, uma banda da guarda civil esperava Chico chegar para tocar ?A Banda?. ?Esta casa legislativa, conquanto nunca estivesse e nem nunca estará à toa na vida, também parou para ver, ouvir e dar passagem ao senhor Francisco Buarque de Hollanda?, disse o vereador Leonardo Mônaco, autor da proposta que deu ao Chico o título. Muita gente riu dela, mas todo mundo concordou que trazia, ao menos, uma meia verdade: a Câmara parou para ver o Chico". Paramos, desde a década de 60, porque é isso: Chico para todos. Um artista brasileiro.

O autor, João Pedro Feza, é editor executivo do JC

Comentários

Comentários