São muitas as definições de Chico Buarque. Artista multimídia mesmo antes do termo se tornar popular, o compositor, cantor, escritor, dramaturgo, músico, ator e poeta é certamente um dos mais influentes na história das artes no Brasil. Entre as muitas facetas de Chico, estão a do sambista, do artista político, do malandro, do tradutor da alma feminina, um autor que mescla a sensibilidade, a poesia e a coragem e firmeza de posicionamentos em seu trabalho.
No dia em que Chico chega aos 70 anos, músicos e cantores bauruenses rendem sua homenagem e enaltecem as qualidades que fazem de Chico um artista único. “Para mim, Chico é o melhor tradutor de todos os tempos daquilo que a gente sente e vive. Não tem ninguém que coloca palavras em música desse jeito. Coisa de gênio”, considera a cantora Manu Saggioro. “Ele é um artista fino, já nasceu com o dom da poesia, da arte. É um fabuloso”, concorda o maestro Badê.
Entre as qualidades elencadas pelos bauruenses, estão a medida certa entre a complexidade e a simplicidade de uma obra que é sofisticada sem deixar de ser popular. “As composições são coisas que a gente tem que pensar, escutar com calma. Tanto as políticas quanto as de amor. Nada óbvio, mas também nada complicado”, analisa a jornalista e cantora Audren Ruth Victorio.
Outros pontos de destaque para Victorio é que a obra de Chico não é datada, segue atual, e que o artista também se renovou. “Mesmo ficando anos e anos sem lançar um trabalho, tudo que ele fala é muito atual. Mesmo as coisas que foram lançadas nos anos 60, 70, estão atuais. Tudo o que você ouve do Chico consegue ligar com algo que está acontecendo atualmente. Tanto na parte social, política e financeira quanto na afetiva. É uma obra que não tem cronologia”, define Victorio.
A dimensão de Chico como contribuinte para a definição de uma identidade da Música Popular Brasileira também é lembrada pelos bauruenses. “O Chico é uma inovação na Música Popular Brasileira e, ao mesmo tempo, uma continuação de Noel Rosa enquanto sambista. Ele é um poeta profundo e a música brasileira ganhou muito com a existência de Chico Buarque”, elogia Badê.
Saggioro ressalta a intimidade do artista com seu público, um jeito próximo de compor. “Eu nem diria qual a importância dele para a MPB, vejo ele sendo importante para o ouvinte, para o público, ele chega direto nas mentes e corações, isso é mais”, comenta a cantora.
Multimídia
Com uma obra que transita entre música, teatro e literatura, Chico Buarque ganha uma dimensão que transcende a faceta mais famosa de compositor. A ligação artista-público se faz presente na plenitude da obra de Chico na opinião de Victorio.
Ele tem um jeito muito particular de escrever. Um dos últimos livros que ele escreveu, ‘Leite Derramado’ (2009) é muito bonito. Ele escreve meio que igual na música. É uma conversa, muitas músicas são um diálogo. Se ficar ouvindo quietinho, dá a impressão que ele está lhe instigando a responder. Quem prestar atenção vai ver que tem uma abertura para o questionamento”, entende.
Corajoso e coerente
Artista engajado politicamente, Chico tem músicas e peças de teatro que desafiaram a ditadura e posicionamentos que mantém, independentemente da popularidade. “O Chico é uma pessoa coerente. Ele não tem medo do patrulhamento. A gente pode ver isso desde a ditadura e atualmente, quando ele ratificou o apoio à presidente com tanta gente contra”, observa a cantora e jornalista Audren Ruth Victorio. “Além disso, a inteligência e sensibilidade nem se discutem. Todo mundo já disse, mas é um dos compositores que mais sabem falar do sentimento feminino dentro da composição dele”, declara.