Política

Nível de emprego é ruim em maio

Nelson Gonçalves
| Tempo de leitura: 7 min

As projeções de resultados ruins para o nível de emprego estão sendo confirmadas pelos principais levantamentos locais e nacionais. Na indústria, a regional de Bauru do Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Ciesp) apresenta resultado negativo no mês de maio (-0,67%). Isso representa uma queda de 1.000 vagas no setor industrial nas 20 cidades que representam a regional. Os dados integram levantamento em conjunto com a Federação das Indústrias do Estado (Fiesp). 

 

O cenário para os próximos meses também não é promissor. Para economistas, 2014 demarca um ciclo perigoso de perda na atividade econômica, com reflexos diretos sobre a redução em contratações. 

 

Conforme os dados consolidados do Ciesp, a variação negativa de 0,67% significou uma queda de aproximadamente 200 postos de trabalho no mês de maio. No acumulado do ano o índice já atingiu -3,29%. O resultado ajustado para os últimos 12 meses é de -3,86%, mantendo a tendência de desaquecimento da atividade industrial. 

 

Segundo o indicador medido pela Diretoria Regional do Ciesp, as variações negativas foram mais afetadas pelos setores de máquinas e equipamentos (-1,61%); confecção de artigos do vestuário e acessórios (-3,29%); produtos de metal - exceto máquinas e equipamentos - (-3,51%) e aparelhos e materiais elétricos (-1,91%). 

 

O diretor regional da entidade, Domingos Malandrino, não vê otimismo para os próximos meses no setor. “O resultado é bem ruim e é uma perda de vagas que infelizmente não terá recuperação de postos de trabalho neste ano. Empresas grandes instaladas em nossa região estão com dificuldades e o panorama não é bom”, observa.

 

Domingos lembrou que o setor já trabalhava com cenário ruim para 2014. “Nós começamos a avaliar as atividades e o nível de emprego com projeção próxima de zero e isso podendo ser para mais ou negativo. Mas o que temos é uma situação pior que o de outras regiões, embora quase todas as regiões estejam indo mal em nível de emprego. Nós podemos fechar o ano com 4% ou 5% negativos em indicador de nível de emprego”, acrescenta.

 

Foco do governo

 

Para a diretoria regional do Ciesp Bauru, as medidas anunciadas pelo governo federal não terão resultado sobre o mercado doméstico. “Estão focando basicamente o incentivo à exportação, o que demonstra que a grita vem também dos grandes. Mas essas medidas favorecem uma escala de 0,01% dos grupos industriais e em nossa base regional temos entre 40 ou 50 empresas que exportam”, pontua.

 

Na avaliação de Domingos, o governo federal teria de se apressar com ênfase para o mercado interno. “A produção para o mercado interno tem de ser verificada pelo governo, mas em ano de eleição o governo não vai mexer. Para os grandes do País, que atuam no mercado externo, a pressão funcionou. Mesmo assim esses resultados não aparecem agora, demoram”, pondera o diretor do Ciesp.

 

Resultado por setor 

 

Dos 22 setores apurados pela Fiesp/Ciesp em maio, 14 computaram queda, cinco registraram alta e três ficaram estáveis no que se refere ao emprego. Entre os que mais demitiram, destaque para a indústria de veículos automotores, reboques e carrocerias, com o fechamento de 3.354 vagas, o equivalente a uma queda de 1,3%, e de máquinas e equipamentos, com 2.275 demissões, ou declínio de 1,1, conforme a nota oficial divulgada pela assessoria das entidades.

Entre os geradores de emprego, se destacaram as indústrias de produtos alimentícios, com alta de 0,2% no mês e geração de 595 vagas, e de bebidas, ao criar 456 empregos, a uma variação positiva de 1,3%.

 

Das regiões consultadas pela Fiesp e pelo Ciesp, 26 anotaram queda no emprego industrial, oito informaram contratações e duas registraram estabilidade. Botucatu computou alta de 1,45% no emprego na indústria motivada pelo segmento de produtos alimentícios (4,46%) e de produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos (5,8%). 

 

Entre as baixas, a região Santo André computou queda de 2,02% e perdas de 3,38% em produtos de borracha e de material plástico e de 2,99% em produtos de metal, exceto máquinas e equipamentos. Em Jaú, o emprego caiu 1,79%, com baixa nos setores de artefatos de couro e calçados (-3,66%) e de produtos alimentícios (-1,03%). Santos também anotou baixa em maio com -1,59%, pressionada pelos segmentos de confecção de artigos do vestuário e acessório (-7,48%) e de produtos alimentícios (-1,31%).

 

Para economista, perspectiva é de desemprego           

 

Entre as máximas apresentadas por economistas ao avaliar cenários de emprego e nível de atividade econômica uma sempre lembrada é de que medidas governamentais não têm efeito em curto prazo para setores como a exportação. Em se tratando de postos de trabalho, há unanimidade em torno da perda continuada de vagas.   

 

No mercado, os resultados não aparecem da noite para o dia quando o governo resolve tentar fomentar a indústria, por exemplo, com foco no mercado externo. Esta é a visão do economista Mauro Fernando Gallo a respeito do atual cenário em confronto com os incentivos anunciados na véspera do feriado pelo governo Dilma Rousseff (PT). 

“No geral as medidas anunciadas agora não vão ter efeito em curto prazo. Em se tratando de exportação, as negociações para contratos se dão em um tempo e somente depois de outro tempo é que conversações se materializam em pedidos”, aborda.

 

Gallo menciona que o termômetro investimento leva em conta três aspectos para nossa realidade. “O investimento para exportação apresenta resultados mais em longo prazo. Outro aspecto é que na região temos poucas empresas com perfil exportador. O terceiro aspecto é que o maior incentivo para novos investimentos é a economia girando bem e isso não está acontecendo”, elenca.

 

Ou seja, o empresário não vai destinar mais dinheiro para ampliar sua planta de produção se não houver demanda. “A previsão inicial do Produto Interno Bruto (PIB) de 2,5% já caiu para 1,5% e já se fala em algo ainda pior. O desânimo vem em escala e esse feito gera desemprego”, enfatiza.

 

Para o economista Gallo é hora de cautela nas contas. “Olha, não quero ser pessimista ao extremo, mas por responsabilidade é preciso dizer que as pessoas têm de tomar cuidado com endividamento nesta fase. Temo pelo resultado já de 2015. Do jeito que está podemos ter saudades de 2014, que já será ruim”, arrisca.

 

Gallo não vê perspectiva para o quadro mudar. “Muitos estão no refinanciamento de dívida e empresas que estão lutando para pagar o que devem não têm espaço para investimento e ampliação de atividade. É um conjunto de coisas em curto prazo que não ajudam na reação. Os efeitos são incertos já sobre 2015”, conta.

 

Pontualmente, o economista acrescenta que a Copa do Mundo de Futebol gerou algum ganho setorial (como no turismo) neste momento e depois tem a eleição onde a tendência é o governo aumentar os gastos. “Mas para 2015 não há nada de novo e essas contas terão de ser pagas lá na frente. O Dia dos Namorados deste ano teve vendas 5% menores que os anos anteriores. Torço para que em 2015 não tenhamos saudades de 2014”, reforça.

 

Indústria paulista perde 12,5 mil vagas em maio   

 

A indústria de São Paulo demitiu 12,5 mil empregados em maio, o equivalente a uma queda de 1,01% na comparação com o mês anterior, com ajuste sazonal. Esta é a pior queda para o mês desde 2006, quando o levantamento começou a ser feito, conforme a pesquisa de nível de emprego elaborada pela Federação e o Centro das Indústrias do Estado de São Paulo (Fiesp e Ciesp).

 

Em nota, a entidade informa que na avaliação de Paulo Francini, diretor do Departamento de Pesquisas e Estudos Econômicos (Depecon), o número negativo de maio “foi muito além” da perspectiva. “Maio foi particularmente ruim, na verdade o acumulado até maio também é fraquíssimo, mas o mês foi muito além da nossa expectativa”, diz. 

 

No acumulado do ano, o emprego industrial subiu 0,63%, o equivalente à criação de 16 mil vagas. Ainda assim, esse é o pior resultado para o período, com exceção de 2009. Pelas contas de Francini, a indústria deve concluir um período de seis anos, entre 2009 e 2014, com 130 mil empregos a menos. 

 

Comentários

Comentários