Bairros

Uma terça-feira de cinzas em Bauru

Marcele Tonelli e Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 6 min

Um novo incêndio registrado na manhã de ontem na fazenda Santo Antônio, de propriedade do grupo Mondelli, deixou grande parte da cidade imersa em uma nuvem de fumaça. Em vários pontos da região nordeste e leste de Bauru, como a Vila São Paulo, Pousada da Esperança e Núcleo Mary Dota, a fuligem se espalhou pelas ruas e quintais das casas.

Ainda no início da noite de ontem, o fogo voltou a se alastrar pela propriedade rural, localizada no quilômetro 355 da rodovia Cezário José de Castilho, a Bauru-Iacanga (SP-321). Até as 22h, o Corpo de Bombeiros ainda trabalhava para conter a chamas. No final da tarde de anteontem, um outro incêndio já havia sido registrado no local, conforme divulgou o JC.

Segundo informações de proprietários rurais do entorno, o fogo teria sido provocado por integrantes de um grupo de cerca de 150 pessoas que ocupou a fazenda há 40 dias. Os acampados negam. Ontem, eles foram obrigados a deixar a propriedade, após a Justiça cumprir um mandado de reintegração de posse com o apoio da Polícia Militar.

Esta é a sexta vez que a área da fazenda pega fogo nos últimos três meses. O estrago provocado pela sequência de incêndios entre anteontem e ontem pode ter atingido aproximadamente 1 mil hectares da fazenda, sendo a maior parte pastagem e cerca de 10% correspondente à Área de Preservação Permanente (APP). Parte de uma propriedade vizinha também foi queimada.

‘Nuvem baixa’

Por conta da baixa umidade relativa do ar e do vento, no período da manhã, a fumaça se deslocou até alguns trechos da Bauru-Iacanga e da rodovia Marechal Rondon, o que prejudicou a visibilidade dos motoristas. A “nuvem baixa” também podia ser sentida e vista até as imediações do bairro Higienópolis.

Ao todo, três equipes do Corpo de Bombeiros permaneceram na fazenda em regime de plantão para contenção das chamas, mas o terreno acidentado e o mato alto da propriedade, que possui aproximadamente 600 alqueires, impossibilitavam o trânsito dos caminhões-tanque da corporação. “Tentamos conter por terra com abafadores e  bomba costal (equipamento com água pendurado nas costas do bombeiro). Mas é uma luta, a gente apaga e o fogo começa em outro lugar”, comentou, no local, o sargento dos bombeiros Jair Ribeiro Camargo.

Segundo o subcomandante do 12º Grupamento de Bombeiros, major Ivair Nunes Pereira, a suspeita é de que diversos incêndios criminosos tenham sido provocados ao longo do dia, já que nem mesmo os aceros (caminhos de terra feitos com tratores para isolar o fogo) foram suficientes para impedir as chamas de se alastrar. O trabalho realizado pelo efetivo também teve apoio de um avião de uma empresa privada da região, contratado por meio de convênio com a Defesa Civil do Estado, e do helicóptero Águia da PM, que transportaram água para ajudar a conter as chamas.


Fotos poderão ajudar investigações

Fotos fornecidas pelo proprietário de uma fazenda vizinha, também atingida pelo incêndio, poderão auxiliar nas investigações. Em entrevista ao JC, Carlos Eduardo Padilha informou que entregou uma série de imagens que flagraram o momento em que o incêndio teve início, por volta das 17h de anteontem.

“Por conta da série de incêndios, estávamos vigiando e vimos que foram os acampados que colocaram fogo”, denuncia ele, dono da propriedade vizinha.

Ainda ontem, a Polícia Científica esteve no local. Segundo o delegado Kleber Granja, responsável pelo setor de investigações gerais da Central de Polícia Judiciária (CPJ), o inquérito policial será instaurado dentro dos próximos dias.

“Com a desocupação, o trabalho de perícia criminal deverá apurar a extensão do dano ambiental e patrimonial, bem como a subtração de bens da fazenda”, adianta.

Ainda de acordo com o delegado, se identificados, os responsáveis poderão responder por crime de incêndio em área de mata ou floresta, cuja pena prevista é de dois a quatro anos de reclusão. Também poderão ser enquadrados por associação criminosa, que impõe punição de um a três anos de reclusão.

Por haver indícios de que atearam fogo na fazenda, também poderão responder por dano qualificado, cuja pena é de seis meses a três anos de prisão. É possível, ainda, que seja investigada a participação de alguns integrantes na prática de furtos. Foram subtraídos três carneiros de uma propriedade, arames, um motor e ferramentas diversas. A pena para este tipo de crime é de três a oito anos de reclusão.


Sem culpa

A hipótese levantada no local, conforme o JC apurou, era de que o fogo teria sido causado por ações dos próprios manifestantes que ocupavam a propriedade.  Questionado, Paulo da Silva - que se identificou como líder do movimento - rebateu a informação.

“Esse fogo foi provocado para nos forçar a sair, barracas pegaram fogo lá pra cima. Temos crianças aqui. Se colocássemos fogo, estaríamos nos sentenciando. Além de tudo, nós também estamos sofrendo com a fumaça”, ressalta o acampado.


Ocupações e chamas

A primeira ocupação da fazenda Santo Antônio neste ano ocorreu no dia 21 de março. O grupo ficou instalado por 34 dias até a reintegração. No mesmo dia, um incêndio queimou cerca de 15 alqueires.

Em 6 de maio, nova queimada destruiu mais seis hectares. Um terceiro incêndio ocorreu três dias depois, quando outra área de sete hectares foi consumida.

Em 15 de maio, a fazenda voltou a ser ocupada por um grupo de 200 famílias. A reintegração saiu no dia seguinte e foi cumprida apenas ontem. Um dia antes, porém, a fazenda Santo Antônio novamente era atingida por incêndio e uma área com mato de, aproximadamente, dois quilômetros foi destruída. Até as 22h de ontem, o Corpo de Bombeiros trabalhava para conter as novas chamas. A suspeita é de que os focos tenham sido intencionalmente provocados, por diversas vezes, ao longo de todo dia.


Retomada

Cerca de 150 pessoas oriundas de Bauru e região deixaram ontem o local após o cumprimento de reintegração de posse. Cerca de 100 homens da PM, funcionários da prefeitura e do grupo Mondelli auxiliaram um oficial de Justiça durante a operação, que ocorreu sem a necessidade do uso de força policial.

A desocupação, contudo, ocorreu sob fumaça. A reintegração teve início por volta das 7h e também contou com apoio da PM Rodoviária, que monitorou o fluxo na Bauru-Iacanga.

Segundo o major Álan Terra, subcomandante do 4º Batalhão de Polícia Militar do Interior (4º BPM-I), os acampados chegaram a oferecer pequena resistência inicial, mas, após meia hora de negociações, decidiram desocupar. De acordo com a liderança do movimento, o número de acampados chegava a 250 famílias. Já a PM contabilizou 150 pessoas.

“Nós vamos cumprir, não queremos briga, só a terra, que está improdutiva e endividada. Se voltamos? Ainda não sabemos, mas não vamos desistir”, resume o líder do movimento no local, que se identificou como Paulo da Silva. A informação sobre as condições da propriedade, no entanto, foi rebatida pelo advogado do gestor da fazenda, Cristiano Quinaia.

“Não há dívidas em relação à fazenda. O frigorífico é que está em processo de recuperação judicial. O grupo tem a intenção de arrendar essa propriedade rural e essas ocupações causaram atrasos”, finaliza.

A reintegração, segundo a PM, foi finalizada por volta das 15h.

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