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Rumo às "Copas do Mundo" do saber

Dulce Kernbeis
| Tempo de leitura: 5 min

Vale a analogia: se houvesse uma Copa do Mundo de Biologia, ou outra de Astrofísica, Bauru teria seu representante no selecionado brasileiro. E, se o nome das competições a que nos referimos  não é Copa do Mundo, a semelhança com o mundo de disputa esportiva não deixa de existir. Afinal, os concursos que Allan Costa, 16 anos, estudante, vai disputar, recebem o nome de Olimpíadas. 

 

São Olimpíadas do Conhecimento de Ciências. Uma delas é de Biologia, a  IBO - International Byolog Olymp iad, e será realizada a partir do próximo dia 5 em Bali, na Indonésia. A outra, menos de um mês depois, em agosto, será na Romênia. É a IOAA 2014 - International Olympic Astronomy and Astrophysics Competitions. Nas duas, estarão os melhores alunos das modalidades do mundo todo. O Brasil compete com uma seleção de cinco jovens. 

 

E Allan Costa não integra o time brasileiro pela primeira vez. Nada disso. Este é o segundo ano que ele disputa uma olimpíada desse gênero, destinada a alunos do ensino médio do mundo todo, com mais de uma centena de participantes na final. Ano passado esteve na Grécia, na final mundial de Astrofísica, e voltou com medalha de bronze.

 

Prudente, não faz prognóstico para este ano. “Posso dizer que estou me preparando muito”, garante, “mas é difícil dizer que lugar vamos pegar”. No fundo, no fundo, confessa que espera subir mais um degrau.

 

Preparação física

 

Quando se fala em um atleta de esportes, a imagem que vem à mente é a de alguém de físico avantajado, o popular “sarado”, certo? Quando se fala em gênio dos estudos, em disputa de saber, a imagem que vem à mente é a de um “nerd”, alguém franzino, de óculos, tímido, mas excessivamente inteligente a ponto de ser chato. Aqui esta analogia não tem o menor sentido. Nada mais impróprio no caso de Allan Costa. Ele não tem nenhum perfil de nerd, a não ser a inteligência privilegiada e a vontade de aprender cada vez mais.  Bonito, alto, vaidoso, brincalhão e, além de tudo, sem desprezar a preparação física. “Não consigo conceber a vida, o meu dia, sem uma atividade física. Disso eu não abro mão”, diz o jovem que, neste momento, está apaixonado pela capoeira.  “Não passo uma semana sem um pouco de Paranauê”.

 

Um parênteses: para quem não sabe, “Paranauê” faz parte de uma letra de canção de capoeira que ficou famosa recentemente com a gíria: “ele manja do Paranauê, querendo dizer, ele se vira”. Assim, Allan não cuida só da mente, o corpo vai junto.

 

Apaixonado pela ciência

 

E do ponto de vista do estudo, Allan se vira. E não vê diferenças entre biologia, astronomia, física, para ele o que basta é ser ciência. Ele é um apaixonado pelas ciências em geral, fala com entusiasmo das horas que fica estudando, se informando. Horas que parecem não pesar. Estudar, ser movido pela curiosidade é o seu prazer. 

 

“Para mim, ao contrário do que se pensa, não é nada obsessivo, é tudo bem interessante. Eu sempre quero e quis ir além da lousa. Você, (referindo-se ao ser humano) é biologia, tudo tem química e nossos atos seguem as leis da física”, diz, tornando tudo tão normal, tão natural, nada que dê medo aos que enveredam pelos estudos.

 

Na sua fala, tudo fica simples. “A ciência de certa maneira é inspiradora, apaixonante, sou mesmo apaixonado pela vida. Vejo o mundo e sou apaixonado por ele, por tudo o que existe”, complementa. 

 

Uma paixão que nasceu lá atrás, na infância, movido pela vontade de saber, acima de tudo. Ele diz isso como se estivesse se penitenciando por usar tanto o termo “paixão, apaixonante”,  observado de longe pela mãe, que não quer aparecer, mas que estampa no rosto um sorriso de orgulho do filho. 

 

Apoio

 

Aliás, o jovem Allan faz questão de agradecer o apoio dos pais, Ana Claudina e Gilberto Queiroz Costa, claro. Mas também estende a outros apoios que teve dentro de casa, como “minha tia Flávia, minhas avós”. Ele tem uma família que entende todo esse processo de estudo e desafios pelos quais está passando.

 

Mas não é só isso, no colégio onde estuda, o COC - Rembrandt, há também o apoio dos professores e em especial da tutora Dani, que o ajuda em laboratório. Aliás, a figura do tutor na disputa das Olimpíadas é fundamental.

 

Neste caso, Dani é na verdade a professora Danielle Demarchi, que o incentiva na rotina de estudar e cuida da parte burocrática junto aos organizadores das Olimpíadas, mas a própria Danielle admite que ser tutora de Allan é muito fácil. “Ele é um autodidata e bastante responsável”.

 

 

Amadurecimento

 

A equipe brasileira é patrocinada em grande parte por recursos do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O “Pq” na verdade veio do termo “pesquisa”, que hoje não faz mais parte do nome oficial do órgão, criado em 1951, mas as pesquisas e apoio aos estudantes e desenvolvedores de novos projetos continuam sendo o mote do órgão, que é uma agência do Ministério da Ciência, Tecnologia e Inovação (MCTI). 

 

Pelas regras, nem a tutora, nem ninguém da família, vai acompanhar os estudantes. Mas ir sozinho a lugares tão distantes é só um detalhe da grande aventura da vida e do conhecimento e que vai deixar Allan, com certeza, tão encantado quanto na competição do ano passado, na Grécia. Um ano depois, Allan, o apaixonado pela ciência, se descreve como alguém ainda mais apaixonado.

 

“Eu cresci e amadureci muito mais psicologicamente depois das Olimpíadas. Foi uma viagem incrível, tanto em história, geografia, como conhecer outra cultura, nem dá para descrever. E desta vez creio que não será diferente”.

 

‘Awe’: pensar diferente

 

Uma das particularidades que mais estimulam este jovem, que hoje se vale muito da internet, mas que vai conferir cada informação que absorve, é o fato de sentir que está inserido no mundo. “É maravilhoso fazer parte deste tempo”. 

 

E como ser um expert em conhecimento igual a Allan? Para isso é preciso ter mente aberta. Estar com as antenas ligadas para absorver e conhecer todo tipo de informação, mas duvidando do que parece certo, fazer novos caminhos. Por isso, ele bebe e se inspira no “Awe”, ou no movimento chamado “shots of Awe”.  Insights, descobertas, mas com visões novas do mundo. “Awe” é uma experiência de uma vasta percepção onde você, cada um, literalmente tem que reconfigurar os seus modelos de mundo para conceber a informação, o novo. Em outras palavras, reconfigurar o próprio jeito de pensar de cada um. Ter acima de tudo “mente para o novo”.  E quem convive com Allan não tem dúvidas de que isso ele tem.

 

 

 

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