Caríssimo professor Sinuhe Daniel Preto, da sua missiva ao JC no dia 20 p.p., agradeço pela menção do meu nome junto ao Panteon Educacional. Sei que não sou merecedor. Meu sonho não foi concretizado, pois sonhava que um dia eu me tornaria um educador. Abortado abruptamente, fiquei na condição somente de professor. Mas, mesmo assim, agradeço com humildade sua lembrança dos nossos bons tempos. Ontem, você, aluno "indisciplinado", era uma gaivota que não aceitava ciscar como as galinhas. Bebia das nossas fontes para voar mais alto e nos voos rasantes colhesse o melhor. Finalmente, você conseguiu o canudo. Nada mudou. Você já era demais!
A realização de um professor é quando vê um discípulo superá-lo. Sei que não estou à sua altura para dizer que fui seu mestre. Prefiro dizer que acompanhei você. Trilhamos pelo mesmo caminho, sonhando fazer a utopia se tornar realidade. Hoje, sonho que um dia a Educação volte a ser apenas Educação, e não mais comercialização.
Naquele tempo, e não vai tão longe assim, os professores eram pessoas consideradas dignas. Alcançar um patamar no Magistério era uma realização. Os pais nos apontavam e, com satisfação, diziam: "este é o professor do meu filho!" O estudante dizia: "este é meu professor!" Estufávamos o peito, porque era como quando Jesus ouviu do Pai: "este é meu Filho amado". Comparando com a era tecnológica de hoje, não tínhamos tanto conhecimento, buscávamos apenas ser sábios. As aulas eram lições com conteúdo de vida e exemplos. Sabíamos que a informação não era unicamente o que formava o bom cidadão, o bom profissional. Diplomas e cursos de pós-graduação não eram uma disputa, mas uma complementação. Hoje a Educação se tornou como a vitrine do meio televisivo. Não se precisa mais de exemplos, de postura, nem de ética. O currículo é montado para robotizar, coisificar o estudante. O ser humano é apenas uma parte da engrenagem que não pensa e nem age por si. O sistema exige apenas papel e "pesquisa". O importante é saber, por exemplo, "quanto tempo um sapo resiste no congelador sem morrer...".
Caríssimo Sinuhe, continuo sonhando que este quadro triste do Magistério vai se reverter. Acredito que esta Nação sairá do seu berço esplêndido e acordará exigindo uma Educação melhor, transformadora e libertadora, com profissionais do Magistério realmente vocacionados para a educação. Verdadeiro mestre que, como dizia Guimarães Rosa: "não é o que sabe, mas o que de repente aprende."
Sinuhe, fique firme! Aguente, companheiro! Você é jovem, forte! É como um bambu, enraizado! Faça por nós, o que não conseguimos fazer. Você, e tantos outros educadores, não são futuro, são presentes para este país. "Dê alimento aos bichos!" Para uns, utopia. Para nós, esperança. E "a esperança não decepciona" (Rm 5,5).
José Rafael Mazzoni