É incrível como a memória preserva momentos marcantes no esporte, alguns, de desclassificações. Jogos decisivos do Brasil são alguns deles. Em 1982, bem garoto, eu estava lá em Ourinhos bem em frente à TV sem cor, na casa verde de madeira da esquina, com camisa amarela e nariz na tela. O sofá foi movimentado para bem perto da transmissão de Brasil e Itália. Tristeza no fim. Adeus, Copa da Espanha. Ficou o manual da Disney com Zé Carioca, até hoje comigo. Quer?
1986: já era outra casa, no mesmo quintal, mas novinha e de alvenaria. Após os pênaltis com a França e mais uma despedida de Copa sem título, teve futebol no campinho perto da estrada. Apareceu um adulto com máscara de monstro e todo mundo voltou correndo para casa.
Em 1990, sala com pouca gente, algum tira-gosto e nada de rojão. Nunca, nem se em guerra estivessem, um Brasil tanto dominou uma Argentina. E dançou mesmo assim. O desclassificado foi o Brasil, né, senhor Diego Armando Maradona Franco.
1994 foi festa, já em Bauru. Só alegria. Quem diria que uma Seleção com tanta dificuldade para se classificar ao Mundial, dele riria por último. Goste ou não, o "é tetra" gritado por Galvão virou eterno naquele exato momento.
1998: xiiiii. Esse negócio de França não dá certo. E fica-se pelo caminho com um inacreditável 3 a 0. Acho que eu fumava na época, ou não, Cebolinha? Foi um jogo no qual parecia que o placar ia virar por algum milagre. E para história entrou por nenhum milagre ocorrer.
2002: show total na manhã da casa de Sérgio Pais e da queridíssima Nádia. Daquelas manhãs em que tudo funciona bem. Já com celular tijolão, consegui ligar para meu pai e compartilhar. Sempre fui torcedor contido, ele, o pai, ainda mais. Mas ali foi arrebatador demais.
2006 e 2010 chegaram, passaram, E 2014, do Rio da redenção, está aí. Quais boas memórias vão ficar disso tudo? Ontem, sufoco imenso nos pênaltis contra o Chile. Passamos, Ufa. Guarde, leitor, a sua lembrança num vestiário seguro. Com ou sem taça, lá na frente, tudo estará incrivelmente preservado. A memória, em si, já é um troféu e tanto.
O autor é editor executivo do JC