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Semiótica, Copa e a minha unha encravada

Vitor Oshiro
| Tempo de leitura: 3 min

O pai de uma das linhas mais aplicadas da Semiótica, Charles Peirce (1839-1914) tinha fixação com classificações triádicas. Ou seja, para ele, quase tudo era dividido e classificado em trios. Eu não vejo bem assim. Para mim, tudo no mundo é seccionado em dois. E sou mais específico: tais divisões são a mentira e a verdade. Ponto. Assim como não existe meia grávida, não existe meia mentira ou meia verdade. É uma ou outra. A primeira exclui e impossibilita a segunda. Simples assim. E tudo que já aconteceu, acontece e acontecerá pode ser classificado dessa forma.

Por exemplo: é verdade que começar o texto citando um estudioso famoso de uma ciência famosa que você buscou na Wikipédia te faz parecer inteligente, mesmo sem ter nada a ver com o artigo que pensa em escrever. É mais verdade ainda que, se pegar o ano de nascimento e morte dele e colocar em parênteses, faz parecer que você realmente sabe quem ele foi.

Mais um exemplo: nos últimos dias, fui alvo de uma grande mentira.  Em 11 de junho, corri e fiz meu testamento. "Deixo, a quem sobreviver, todos meus bens: uma televisão, um box com filmes do Rocky Balboa, uma coleção de canecas do Corinthians recebidas em todo aniversário repetidamente e uma gata preta que não traz azar (eu acho)". Fiz tal inventário póstumo porque estava certo que o mundo acabaria no dia 12. O motivo do apocalipse: a Copa no Brasil.

Fui sendo enganado aos poucos pelo "Não vai ter Copa" ecoado aos quatro cantos. Antes disso, pelo "Imagina na Copa" nas redes sociais. Caí como um patinho (ou como o Fred naquele pênalti da estreia) na lorota. Realmente, acreditei que não iria ter o Mundial por aqui. Esperava que, minutos antes de o juiz apitar, fosse cair um meteoro e dizimar a todos. Não caiu.

Esperava que, quando o Galvão falasse "Bem amigos, estamos em definitivo...", um black bloc invadisse a minha casa e arrancasse meu coração com as mãos por saber que, lá no fundo, eu torcia para a Copa dar certo. Ele não invadiu. Pelo contrário, a Copa está sendo ótima até aqui. Dentro de campo, até Suíça e Equador conseguiram fazer um jogo pra lá de emocionante. Até Costa do Marfim e Grécia (ontem eliminada) fizeram o mesmo.

Fora de campo, os aviões não caíram com o caos aéreo. O sistema viário não entrou em colapso, fazendo com que as pessoas, ensandecidas pelos congestionamentos de anos-luz, atacassem umas às outras com atos de canibalismo. O Itaquerão não implodiu em um enorme buraco-negro no universo. Nada disso aconteceu. Só surgiu uma unha encravada no meu pé (que está doendo mais do que ter o coração arrancado por um black bloc, por sinal). E digo mais: nem a unha encravou por conta da Copa no Brasil. Nem uma mísera unha encravada esta hecatombe de araque trouxe. Nem isso o apocalíptica Mundial de futebol conseguiu fazer.

Mas, tá aí uma verdade: minha unha encravou porque tenho a horrível mania de puxá-la com as mãos. Uma ex-namorada sempre me alertava que isso iria ocorrer e dizia que esse meu hábito era "meu lado mais ogro". Tá aí uma mentira: ela dizia isso porque nunca me viu tentando desencravar uma unha usando um palito de dente, a tampa de uma caneta bic azul e uma pinça.


O autor, que precisa urgentemente deixar de ser teimoso e ir a um podólogo, é editor local do JC, jornalista responsável da TV USP Bauru e especialista em Linguagem, Cultura e Mídia

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