Talvez eu esteja sendo um pouco exagerado em adotar uma posição tão pouco radical num ano que o meu país, a minha pátria amada veste as chuteiras para receber, senão, o maior evento do planeta. Peço desculpa aos meus amigos e minha própria história, pois cresci vivendo, torcendo e falando sobre futebol. Isso não quer dizer que deixei de gostar, mas de certa forma, deixou de ser empolgante como antes. Quando me apresentaram uma bola, não sabia ao certo o significado das siglas que hoje transformaram o esporte em negócio. Não quero "sacrificar" o capitalismo e nem passar a impressão que sou um comunista (até porque o capitalismo é fruto da nossa alta demanda de consumo), mas as coisas extrapolaram. Para entender melhor, basta ligar a televisão. A bola balançando as redes é um mero detalhe. Entregamos-nos às "marionetes marketizadas". É triste dizer, mas as crianças desaprenderam a torcer.
Quando está chegando a hora do jogo (principalmente agora que é Copa) meu coração ainda tenta me mostrar e me convencer que não é bem assim. Como poderia eu ter o direito de privar as pessoas do prazer e da liberdade de torcer? Como não ficar alegre ao ver as pessoas vibrando felizes após um jogo extremamente dramático? Não tem como. Quem dera se os nossos governantes fossem cobrados na mesma intensidade que o técnico ou o centroavante da nossa seleção. Certamente as coisas seriam diferentes. É uma pena! Sabemos os nomes dos 23 convocados e mal sabemos em quem votamos na última eleição...
Ah que saudades do campinho de terra, da rua de asfalto onde marcávamos as traves com chinelo de dedo. Aquele era o verdadeiro futebol. Podíamos uma hora ou outra até perder a ponta de dedão, mas nunca a paixão e a educação. Talvez fosse bom continuar a ser criança e não entender o que acontece nesse mundo. Mas a gente cresce e começa a buscar respostas para umas coisas que talvez nunca sejamos capazes de compreender. No que estariam pensando aqueles que vaiam o hino adversário e logo em seguida bradam com imponência "à capela" o hino brasileiro achando que é a maior prova de patriotismo dos últimos 500 anos. No que estariam pensando aqueles que fazem do insulto uma "obra de arte" ? seria numa abertura de uma copa o local ideal para manifestar? Pelo menos daquela forma? Será que os responsáveis em "puxar o coro" representam de fato a maioria da população brasileira? É triste dizer, mas as crianças perderam o respeito e confundiram o que é torcer.
Desculpe a sinceridade e algumas palavras que vão contra o ufanismo de um povo que revive o orgulho de sediar uma Copa após 64 anos, mas a minha esperança de ver um país melhor e mais justo de verdade (ainda que leve muito tempo) é muito mais importante que tudo isso.
A Copa, a FIFA (que ficou ainda mais rica) vão embora e nós vamos continuar aqui driblando os mesmos problemas que vão continuar fazendo parte do nosso dia a dia. É triste dizer, mas as mesmas crianças que desaprenderam e confundiram o que é torcer não tem a mínima noção que o jogo não vai terminar após o apito final. Fico tranquilo em dizer isso, pois acho que muitos também pensam como eu. Vou continuar a torcer pelo Brasil do futebol, mas com os pés no chão! "Panem et circenses"...
Luiz Henrique A. Campanha