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Três UPAs têm domingo sem médicos

Tisa Moraes e Vinicius Lousada
| Tempo de leitura: 6 min

Um problema que tem se tornado crônico em Bauru voltou a se repetir, ontem, de maneira crítica. Três das quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) existentes na cidade passaram o domingo sem um médico sequer e, por conta do problema, houve sobrecarga nos serviços que permaneceram em funcionamento.

Éder Azevedo

Três das quatro Unidades de Pronto Atendimento (UPAs) existentes na cidade passaram o domingo sem um médico

Mais uma vez, a justificativa para explicar o inaceitável foi o desinteresse dos profissionais em cumprir plantões extras nos finais de semana, pela remuneração de cerca de R$ 1,4 mil por 12 horas de trabalho. A ausência de médicos já havia paralisado os atendimentos na UPA do Ipiranga e do Mary Dota em outras ocasiões, nos  últimos três meses, conforme o JC vem divulgando.

Segundo o relato de funcionários, este seria o quarto domingo consecutivo que o atendimento nas UPAs foi suspenso devido à falta de médicos. Mas, desta vez, o problema também se estendeu à unidade do Bela Vista, que recebe o maior volume de pacientes entre todas as UPAs.

A única que permaneceu aberta, com dois médicos de plantão, foi a unidade do Geisel/Redentor, que registrou grande movimentação de pessoas ao longo de todo o dia. Segundo o JC apurou, o tempo de espera chegou a três horas no local.

A situação se repetiu no Pronto-Socorro Central (PSC), em que a demora para consulta foi de três horas e meia durante a tarde, conforme relato de usuários. A dona de casa Andressa Cristina Silva de Oliveira, 32 anos, chegou à UPA do Ipiranga por volta das 13h para acompanhar o namorado, que se queixava de náuseas, diarreia e dor na nuca.

Informada de que não havia médicos na unidade, o casal chegou ao PSC uma hora depois, mas o rapaz só conseguiu passar por avaliação médica por volta de 17h30. “Foram quatro horas e meia até conseguir atendimento. No Pronto-Socorro, nem tem lugar para sentar, de tão cheio”, reclama. Ontem, o padeiro Ariovaldo Cipriano, 36 anos, enfrentou a mesma via-crúcis.

Sem opções

Com o carro quebrado e indisposto devido a um conjunto de sintomas característicos de gripe, esperou por cerca de uma hora em um ponto de ônibus para conseguir ir até a UPA do Mary Dota. Ao descobrir que não receberia atendimento, precisou se deslocar até o PSC.

“Estou ruim há três dias, mas hoje (ontem) piorou. Não consegui dormir à noite e, amanhã (hoje), entro no trabalho às 4h. Não tenho outra opção senão esperar até conseguir algum remédio com o médico”, lamenta. Até as 17h30, ele ainda aguardava na unidade.

Na UPA do Bela Vista, a empregada doméstica Cristiane Pinheiro Carderari, 35 anos, também foi frustrada em sua tentativa de conseguir atendimento médico para a filha, Kariene, 17 anos. “Ela está com cólica, diarreia e vômito. Se está tudo fechado e o Geisel e o PSC estão cheios, não sei o que vamos fazer”, lamenta.

Segundo o JC apurou, foi a primeira vez que a UPA do Bela Vista ficou sem nenhum médico de plantão. Mesmo com escala incompleta, pelo menos um profissional vinha se prontificando a atender os pacientes aos domingos.


Triagem

Enfermeiros e auxiliares de enfermagem que trabalharam ontem nas UPAs do Bela Vista, Mary Dota e Ipiranga tinham autonomia, apenas, para prestar o primeiro atendimento, ou seja, os procedimentos de triagem, tais como aferição de pressão e temperatura, como avaliação preliminar sobre a gravidade dos casos, para que o melhor encaminhamento, dentro do possível, pudesse ser dado aos casos.

Pacientes que dependiam de transporte poderiam ser levados à UPA do Geisel/Redentor ou ao PSC por uma ambulância municipal. Já para os casos mais graves, uma viatura do Serviço de Atendimento Móvel de Urgência (Samu) seria acionada. A reportagem esteve em algumas unidades e constatou que nem mesmo vacinas poderiam ser administradas. “É preciso ter retaguarda médica caso haja alguma reação. E medicamentos só saem daqui com prescrição”, comentou um funcionário.


Rodrigo vai se reunir hoje e cogita aumentar valor do plantão

O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) confirmou a interrupção dos atendimentos que exigem retaguarda de médicos em três das quatro UPAs. Hoje, ele promete discutir a possibilidade de aumento no valor atual de, aproximadamente, R$ 1.400 pago aos profissionais por cada plantão extra de 12 horas.

Em 2011, o valor do plantão para os médicos dobrou de R$ 600,00 para R$ 1.200,00, após pressões da categoria. “Temos escassez desses profissionais no mercado e, cada vez mais, eles exigem melhorias, principalmente no que diz respeito à remuneração”, argumenta Rodrigo.

A reunião de hoje contará com a participação do secretário municipal de Saúde, Fernando Monti, e da equipe técnica da Secretaria de Finanças, já que o titular da pasta, Marcos Garcia, está em férias.

O prefeito cogita ainda ampliar o valor pago por jornadas extras aos demais funcionários da Saúde. Auxiliares de enfermagem, por exemplo, recebem R$ 120,00 por 12 horas de trabalho de segundas às sextas-feiras e R$ 200,00 aos finais de semana.

“Vamos conversar sobre inúmeras possibilidades, mas o que a gente percebe, principalmente, é que, para os médicos, não está mais compensando fazer os plantões e, por isso, temos essa dificuldade em fechar escalas nos domingos e feriados”, pontua.

Como já noticiou o Jornal da Cidade, a rede de urgência e emergência em Bauru enfrenta déficit de 69 médicos. A prefeitura, apesar das limitações orçamentárias e fiscais, tenta contratar mais profissionais.

No entanto, mesmo com a implantação do Plano de Cargos, Carreiras e Salários (PCCS), na administração anterior, apenas um dos 24 aprovados em concurso público se interessou, de fato, em assumir o cargo.

Com a ampliação do serviço, por meio das inaugurações das UPAs nos últimos quatro anos, aumentou também a defasagem de servidores das áreas de enfermagem, limpeza e atendimento.

Essa situação estaria exigindo sobrecarga de trabalho aos profissionais, que têm resistido a cumprir plantões extras. Muitos alegam, aliás, que a questão financeira deixou de ser prioridade.

Mágica

Ampla reportagem do JC sobre o cenário, publicada em maio, culminou em audiência pública convocada pela Câmara Municipal, na qual Fernando Monti declarou que não ser o Harry Potter para resolver todos os problemas do setor.

Agostinho garante, no entanto, que, desde então, reuniões de trabalho têm sido realizadas. “Nessa semana que passou, me encontrei com alguns funcionários do Pronto-Socorro e também já conversei bastante com grupos de médicos”.

Saídas

Uma solução viável para o impasse seria a contratação de profissionais exclusivamente para a prestação de serviços em plantões médicos, por meio da Fundação Regional de Saúde. Não há, porém, sinais de que a entidade idealizada por Fernando Monti passe a operar em curto prazo.

Já um grupo de vereadores sugere ao governo municipal a criação da carreira de médicos-socorristas, oferendo salários de R$ 10.000,00 por jornadas de 12 horas por 36 horas de descanso, com o intuito de abolir a política de plantões extras que, atualmente, viabiliza a rede de urgência e emergência em Bauru.

 

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