O futebol, inventado pelos ingleses para "fortalecer o espírito dos jovens" através do esporte, da disciplina, da dedicação, do esforço, da obediência, ganhou o mundo assim como a sua vitoriosa Revolução Industrial. No Brasil, país pobre, de grande miscigenação racial, cultural o "esporte bretão" fez sucesso pela sua prática simples: uma bola de qualquer tipo, duas traves quaisquer e milhares de jovens correndo atrás da bola para ganhar o jogo.
Entre nós, o futebol assumiu outras características, deixando de lado o seu foco na formação e fortalecimento do espírito para ser um esporte que valorizava a criatividade, a malandragem, a quebra da disciplina, o surgimento do "craque" que resolve tudo sozinho, enfim, o resultado dessa mistura chamada Brasil.
Sucesso no mundo inteiro, a gestão do futebol assumiu ares de empresa multinacional através da controvertida figura de um brasileiro. As copas do mundo vieram através dessa organização internacional e, conforme o tempo passava, as denúncias também, de uso do esporte mais popular da Terra para conseguir vantagens pessoais através de conchavos com ditadores, manipulação de resultados, contratos direcionados de propaganda e venda de materiais esportivos, venda de ingressos com lucros exorbitantes e não contabilizados, ao invés de investimentos pesados e constantes em milhões de crianças pelo mundo que poderiam sair da exclusão social por essa prática esportiva. Não podemos esquecer que no Brasil, grande celeiro de jogadores, a maioria absoluta dos profissionais vem de legiões de meninos, e hoje meninas, de periferia a maioria em situação de exclusão social, situação que se repete pelo mundo.
Com a internacionalização/globalização do futebol, ele virou uma febre, uma mania de bilhões de dólares onde as pessoas que manipulam o seu futuro não querem perder as suas vantagens e, para manter-se à tona, montaram um esquema de eleições perpétuas, dinásticas, onde as confederações e federações não têm autonomia e só seguem o que é decidido pelo centro sem respeitar países, jogadores, leis em nome do lucro pelo lucro. Nesse esquema de faturamento e desrespeito, o futebol brasileiro se perdeu: exportação de craques, poucos investimentos na sua base, que deveria ser enormemente ampliada e incluir as meninas, abandono das suas raízes criativas, imitação pura e simples de modelos de fora e um descaso absurdo da sua gestão preocupada apenas na manutenção do esquema dinástico de eleições perpétuas.
Com a Copa do Mundo no Brasil, não aproveitamos a chance para começarmos a fazer as coisas de forma diferente, desde a construção das arenas até a preparação dos nossos jogadores, passando pela eleição dos responsáveis pela gestão do futebol brasileiro, o que se vê é a manutenção de antigos vícios que tanto prejuízo nos traz.
Tudo seria esquecido mais uma vez se não fosse a tragédia do resultado do jogo Brasil X Alemanha onde a "nação canarinho" foi abatida por uma Alemanha que resgatou os princípios básicos do "esporte bretão" e um Brasil que há muito tempo já não serve de exemplo para ninguém e não tem coragem de aliar a sua antiga prática à evolução que foi mostrada pelos jogadores germânicos, no jogo jogado e há muito tempo na gestão das coisas do futebol. Perderemos essa chance de aprender com a tragédia?
O autor é professor de História em Bauru