Quando terminou o jogo com aquele inacreditável 7 a 1 para a Alemanha, envergonhado pedi desculpas a minha cachorrinha Júlia. Ela já era traumatizada com os gritos do Galvão. A partir do terceiro gol abandonou o meu colo para se esconder debaixo da cama. Só saiu do quarto no fim da transmissão. A tragédia do Mineirão chocou a todos - homens, coisas e animais. Até mesmo Mick Jagger, o vocalista dos Rolling Stones presente no estádio, deve ter voltado a se sentir "como uma pedra que rola sem o rumo de casa", como diz a canção de Bob Dylan. Mas o sol voltou a raiar no horizonte do Brasil, com seus raios fúlgidos, e a vida continua. Nestes tempos de comunicação instantânea e planetária, das transmissões ao vivo por incontáveis ângulos, restaram registrados nos arquivos digitais o choro de crianças e a tristeza nas ruas, antes desertas. A rede norte-americana Bloomberg chegou a instruir os seus colaboradores a não mais postarem fotos de crianças em choros convulsivos, porque começou a gerar mal-estar entre os assinantes.
"Não existe fato. Existe explicação" - ensinava Nietzsche no século 19. Vamos atravessar o século 21 lendo e ouvindo os especialistas interpretarem as causas do Mineirazzo. Já disse aqui, sou sobrevivente do Maracanazzo, de 1950. São passados 64 anos e ainda tentamos entender a tragédia, talvez muito mais doída que os 7 a 1 para a Alemanha porque naquela época havia a certeza da vitória.
O Brasil é que havia goleado a Suécia por 7 a 1 e a Espanha por 6 a 1. O país era muito mais pobre. As nações ricas iriam se curvar diante do Brasil. Não tínhamos campeões em esporte nenhum. O futebol haveria de nos redimir do subdesenvolvimento. Na coletiva à imprensa, Felipão disse que não fez nada errado e não se vê culpado pelo resultado inesperado e vexatório. Lembrei-me de Yustrick, um técnico de futebol do tipo machão-troglodita, com passagem pelo Cruzeiro, de Minas: "Eu ganho. Nós empatamos. Vocês é que perdem".
Os alemães criaram uma palavra para adjetivar o prazer que as pessoas sentem com calamidades alheias, composta por schaden (dano, prejuízo) e freude (alegria, prazer). Os argentinos, nossos tradicionais adversários, estão possuídos pelo schadenfreude - o escárnio, a ironia ou o sarcasmo perante a desventura sofrida pelo povo brasileiro.
Temos que aguentar, com um sorriso amarelo, ou "canarinho". Não há mal que sempre dure. O infortúnio purifica-se pela catarse, que é a purgação dos elementos perniciosos. Após a catarse vem o alívio e a sensação de equilíbrio. Está no texto de Aristóteles. A catarse se dá pela crítica. Exercer um pensamento crítico significa não deixar que a última palavra fique com os experts, mas sim com os que estão mais diretamente interessados, os cidadãos brasileiros. Consumada a tragédia de 1950, o Brasil chegou a sua primeira Copa já em 1958. Nossa seleção é a mais vitoriosa de todas, com cinco títulos. Tornamo-nos os reis do futebol. Éramos elogiados pela organização e planejamento. A Alemanha começou a reformular o seu futebol a partir de 2002 quando perdeu de 2 a 0 para o Brasil, na final da Copa Japão-Coreia. Sagramo-nos pentacampeões, e paramos. A Federação Alemã, pressionada pela população construiu 360 centros de formação de jogadores, onde são atendidos 25 mil meninos e meninas, de 9 a 17 anos. Foi preciso, também, reformular a liga de futebol (Bundesliga) e o campeonato, com o enquadramento dos clubes em normas de administração austera. Clube endividado sai da liga e do campeonato. Enquanto isso, quebrados, os clubes brasileiros deixaram de formar jogadores. A especulação imobiliária e a tecnologia acabaram com aquela formação natural de craques que se dava nos campos de várzea. O Brasil já conquistou cinco títulos mundiais, mas não pode mais continuar dependendo do improviso e da criatividade intuitiva dos jogadores, sujeitos a apagões por falta de preparo psicológico e técnico.
Em organização extra-campo passamos no teste. Para usufruir da tecnologia da Copa só precisamos agora de determinação. A melhor lição para governos e instituições foi dada pela sociedade. Na hora do vamos ver, todos colaboraram. Teremos agora os Jogos Olímpicos de 2016. Muitos turistas querem voltar. O ideal é que a mentalidade de receber bem - ou do que poderíamos chamar de espírito da Copa - se torne um bem permanente, refletindo-se na organização do nosso futebol.
O autor é jornalista e articulista do JC