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"Geração Facebook" completa 10 anos

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 6 min

A ideia de conversar em grupos, conceito de origem tribal, ganhou dimensões inimagináveis no mundo contemporâneo com a plataforma eletrônica ddigital. Os 10 anos do Facebook são o maior símbolo do novo tempo e consolidam a formação de uma geração inteira adepta da mídia social.

  

Mas que papel desempenhou essa novidade que permite o contato entre estranhos ou de pessoas conhecidas sem o fator presencial? Qual o caminho da próxima década para a ferramenta continuar a seduzir o imediatismo dos jovens da linguagem fracionada, mas ágil e, porém, superficial? 

Para os que estudam o fenômeno, as  mídias sociais instituíram uma era, uma década de geração que nasceu e recebe a formação de hábitos dentro de uma tecnologia que não existia antes, a geração eletrônica e digital. O comportamento desta geração é completamente distinto de quem viveu nesse ambiente antes de 2004.

E, como toda tecnologia, o advento de redes sociais traz benefícios e malefícios. Mas como convencer os leigos sobre a compreensão do conflito de que tudo o que está publicado na rede está, de fato, nas nuvens, armazenado em um dispositivo satelizado.

Ou seja, se você postou algo, esta imagem ou mensagem não lhe pertence mais. Sob as regras da conduta da rede social a informação, por texto ou imagem, de fato, foi entregue à plataforma a que você se “linkou”, como, por exemplo, o Facebook.

Para o especialista em conteúdos digitais, Paulo Milreu, “as pessoas perderam o sentido sobre o que é dela e da plataforma”. Portanto, usar a rede social é socializar conteúdos específicos, inclusive os íntimos. Mas a “arte da sedução e do impulso do acesso na informação digital fez com que as pessoas perdessem o sentido sobre a manutenção de sua intimidade. A impulsividade na hora de manifestar emoções na rede é o desafio”, avalia.

E, em se tratando da maior rede social do mundo, a maior parte dos usuários ainda não tomou dimensão da amplitude sobre o que é informado e o alcance. Em 2012, durante uma semana, a rede social interferiu no “feed notícias” de um grupo de usuários para avaliar se o conteúdo das mensagens recebidas afetaria seu humor e o teor de suas próprias atualizações.

A avaliação, comentada durante a 17ª edição dos Anais da Academia Nacional de Ciência, nos Estados Unidos, foi realizada em parceria com as universidade americanas de Cornell e da Califórnia. A conclusão principal foi de que os usuários que receberam menos “posts” negativos em seu “feed” tinham menos chances de escrever uma mensagem negativa e vice-versa.

O pano de fundo do estudo foi verificar se mensagens positivas ou negativas interferem no comportamento das pessoas na rede.É o que os especialistas falam de “emocionalizar”. O advogado e perito digital José Antonio Milagre adverte que os usuários não só não tomam cuidados com “a verificação da origem das informações que recebem, como poucos dominam os filtros de monitoramento”. O estudo realizou críticas sobre a postura ética do facebook diante dos usuários.     

Intimidade

A partir, sobretudo, do Facebook tudo passou a ser de “domínio público”, mesmo aquelas conversas circunscritas a um pequeno círculo. E pior, a maioria dos usuários ainda não compreendeu que o que cada um publica “é e não é seu”. Resumindo: o que você publica é sobre você, mas não pertence mais só a você.   

O fator não compreendido é discernir a extensão da publicidade sobre o conteúdo, pondera o professor universitário Reginaldo Tech.

Outro viés da plataforma é a aplicação social, o que favorece a prática de crimes como pedofilia, sexo e drogas. A exposição de menores do próprio corpo e a perda ou falta de noção com o outro ao se divulgar uma imagem do corpo é outro elemento não bem resolvido em mídias como o Facebook, apesar da legislação.

Reginaldo Tech, professor universitário, vê como desafio a melhora no conteúdo da comunicação. “As redes sociais têm o poder, mesmo que isso não aconteça sempre, de democratizar a informação. Portanto, as pessoas começam a deixar a cômoda situação de apenas leitores e vão, aos poucos, aprendendo a interagir”, avalia.

O debate mais aprofundado para temas sociais, sem interjeições simplistas ou apenas emocionais, integra parte desse desafio para a comunicação interativa de plataforma digital, na visão de Tech. “Creio que as mídias digitais estão num primeiro estágio, ou seja, trazer as pessoas a participarem da rede, opinando, compartilhando, postando, comentando. Então, estamos todos numa imensa conversa, independentemente do lugar que estamos. Porém, vejo que é preciso qualificar mais essa rede e esse grande debate público. Esse é o grande desafio”, pontua o professor Tech.


Domínio do jovem

Conforme a pesquisa TIC Domicílios, os jovens continuam a ser os mais conectados à Internet (75%). Entre os brasileiros a partir de 10 anos, conforme o Cetic, 77% das conexões são de pessoas entre 16 a 24 anos e 66% entre os de 25 a 34 anos. A pesquisa é sobre o Uso das Tecnologias de Informação e Comunicação no Brasil (Cetic.br).

Na faixa entre 35 e 44 anos, 47% são apontados no estudo como fazendo uso da rede. Esta faixa é a que mais está fora da rede, por outro lado, com 44%, ou 45 milhões de pessoas sem utilizar a Internet.  Quanto aos tipos de conexão usados nas residências, a banda larga fixa permanece na frente, com presença em 66% dos lares conectados. Já a banda larga móvel (modem 3G) passou a ser usada em 22% das residências com acesso à Internet.

Nos apontamentos do Cetic, os dados reforçam que a política de inclusão digital no Brasil precisa levar em conta a “conexão” ao acesso ao “equipamento”. Do ponto de vista da ferramenta, ao invés de celulares a política deve facilitar acesso a computadores e internet nas residências e em espaços públicos, como escolas.


Jovens têm preferência pela rede social

Para o especialista em perícia digital José Antonio Milagre, o Facebook é uma das mídias mais valiosas do tempo moderno. “As curtidas de amigos sobre um produto ou serviço influenciam na decisão de compra ou adesão a um serviço, por parte de outras pessoas. A mídia em Facebook vem crescendo pois sabe-se que o brasileiro não desliga da rede nem para trabalhar”, avalia.

Mas o desafio da ferramenta que seduziu jovens também é o de enfrentar o imediatismo de seu principal público. “Segundo a pesquisa Secom realizada há algumas semanas o facebook alcançou 30% do público entre as diferentes mídias disponíveis, incluindo os veículos de comunicação tradicionais. A questão é que o jovem quer tudo de forma muito prática e ágil e o desafio é não se tornar já descartável, continuar sendo atrativo”, diz.

Além disso, o advogado também especializado em direito digital aborda o fator custo-benefício da ferramenta. “É um aplicativo gratuito para acessar e utilizar e onde também é barato promover um produto ou serviço, daí ser a rede social preferida dos brasileiros”, pontua.

Mas José Antonio Milagre enfatiza que, no universo do jovem, o novo é velho fácil. “Jovens já preferem o Whatsapp ao Facebook, principalmente porque o primeiro ainda não possui propagandas. Estamos caminhando para um conceito de redes sociais práticas e ágeis. E se passar a cobrar, como isso vai ficar?”, indaga.

Outro ingrediente é o de que, exatamente na mão inversa do Facebook, o Whatsapp é alternativa por oferecer mais “privacidade”. “As pessoas que preferem pouca exposição estão buscando o Whatsapp”, observa.

Mas, para o perito digital, os donos do Facebook já estão atentos a essa situação. “Os celulares são os novos computadores e, com certeza, o Facebook está atendo a estas mudanças. Há alguns anos, eu ouvia muito falar que o Facebook não ia se tornar um Orkut. Não se tornou, mas fez daquela rede um ‘deserto’, tanto que o Google anunciou seu encerramento esta semana.

 

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