A doença chamada cárie ainda está presente em níveis inaceitáveis em diversos bairros periféricos de Bauru. Por conhecida falta de informação e de consciência dos pais, de um lado, o grave indicador de saúde bucal conta com a deficiência estrutural e de ação do poder público.
Os programas municipais têm cobertura restrita e contam com dados inconsistentes. Mesmo nas escolas e unidades de saúde aonde as ações em saúde bucal chegam em Bauru, há falhas na triagem e em planejamento. Falta até pasta de dente e escova para distribuição à população carente.
Apesar desse panorama, onde o programa é executado a resolutividade alcançada é de 78,9%. Entretanto, o percentual refere-se a “tratamentos concluídos” – ou seja, refere-se a ação curativa. Foram 3.975 crianças de 5.009 que tiveram o tratamento completado desde a primeira consulta em 2013.
Ou seja: na contramão das orientações para o setor, a “produção” apresenta bom índice na ação curativa, em detrimento à ação preventiva e de orientação em escala.
Milhares continuam sem acessar aos programas locais. Não obstante o esforço e a reconhecida motivação da coordenação do programa na Seção de Odontologia da Secretaria Municipal de Saúde, a sistemática identifica necessidade de revisão na forma, no planejamento e na cobertura - que é reduzida e, ainda assim, falha onde o serviço chega. A administração ainda “toma conta” de programa de saúde bucal em escolas estaduais. Mas aqui, das 51 escolas do Estado com 36.670 alunos matriculados em 2013, em apenas 15 há atendimento odontológico.
Posicionamento
Baseado nisso, a Seção de Odontologia considera cobertura de 27,9% das unidades estaduais de ensino, ou acesso a 10.241 alunos desse contingente ao programa. Mas o dado não reflete a realidade.
A triagem dos alunos com profissional dentista é parcial. Nas escolas municipais, a coordenação confirma que, além da verificação da condição de saúde bucal das crianças por amostragem, o governo local espera posicionamento dos pais.
Uma carta com orientação é encaminhada aos pais na origem dos programas, explica Nildiceli Leite Melo Zanella, chefe da Seção de Odontologia da Secretaria Municipal de Saúde. Motivada, ela defende o engajamento de toda a equipe.
“Nem todos realizam a primeira consulta de diagnóstico, mas levamos em conta uma abordagem de pelo menos 71% dos alunos, conforme preconizam as orientações consolidadas para ação em saúde bucal”, argumenta Nildiceli.
Além de fazer pouco junto á rede que não é de sua responsabilidade, a Prefeitura atende de forma incompleta entre os alunos sob sua gestão direta. Das 16 escolas do ensino fundamental, apenas duas contaram com atendimento odontológico. Contaram, e de forma parcial. Porque nas Emefs Cônego Aníbal e Santa Maria o programa também foi suspenso por reforma nas instalações, segundo o próprio governo.
Assim, são mais 8.558 alunos sem acesso ao dentista. No ensino infantil, considerado prioridade para a Secretaria Municipal de Educação, a deficiência estrutural do programa se repete.
Das 60 unidades, sendo 39 Emeis e 21 Emeiis (infantil integral), apenas 17 contam com ações permanentes em saúde bucal, seja com consultórios odontológicos (em 9), seja com ART (sem consultório) ou com o programa odontocriança (6 unidades). Como o planejamento considera todos os alunos matriculados nessas unidades, a cobertura, no papel, seria de 28,3% na faixa etária mais importante da cultura e formação para a saúde bucal. Mesmo considerando essa tabulação oficial da Prefeitura, 6.300 crianças não teriam acessado o programa em 2013.
Outra parte do atendimento em saúde bucal no município é realizado em 15 Unidades Básicas de Saúde (UBS), além de seis Unidades de Saúde da Família (USF), uma unidade móvel e três Unidades de Referência. A administração informa que são 78 cirurgiões, 50 auxiliares e quatro técnicos distribuídos em cargas horárias, em geral, de 20 horas semanais.
Prefeito: prioridade é ampliar cobertura para corrigir rumos
O prefeito Rodrigo Agostinho (PMDB) reconhece que as ações em saúde bucal precisam chegar a muito mais cidadãos, sobretudo nos bairros mais distantes da região central. Apesar disso, ele pondera que Bauru tem, a seu favor, indicadores positivos de cárie por faixa etária e programa de abastecimento de água com eficiência em se tratamento da presença de flúor.
“Temos uma dos melhores indicadores de qualidade de flúor na água e Bauru foi uma das primeiras cidades do País. Outra coisa é que temos duas Faculdades de Odontologia muito boas.
Mas é preciso avançar em capilaridade, fazer as ações de saúde bucal chegar a muito mais gente. Não há mais a diretriz de ter consultório em toda escola, mas as ações preventivas e de orientação precisam chegar a mais gente”, aborda Agostinho.
Rodrigo também salienta medidas estruturais realizadas pelo governo. “O Centro de Especialidades Odontológicas funcionava dentro da Universidade do Sagrado Coração e nós tiramos de lá e trouxemos para o Centro. O CEO avançou e está fazendo inclusive prótese dentária que não tinha no passado. Mas nós precisamos aumentar a cobertura do programa”, cita.
Para tanto, o prefeito informa que no projeto de reforma de todas as Unidades Básicas está incluído a existência de gabinete dentário próprio. “Outra coisa é o programa nas escolas. Isso precisa melhorar e muito porque apesar do Odonto Móvel a cobertura não é a que se espera”, reconhece.
A secretária Municipal de Educação, Vera Casério, confirma que o quadro de dentistas é reduzido, mas fala que a diretriz é de orientação. “O quadro com dentista e gabinete é reduzido, mas o papel neste projeto é de orientação, de prevenção e não de ação curativa. A criança aprende a escovar os dentes, a usar corretamente a escova, os horários em que deve escovar, a usar o fio dental”, posiciona.
Casério enfatiza a ajuda da Faculdade de Odontologia no trabalho. “Eles da Odonto da USP realizam uma ajuda fantástica. Eles fazem esse trabalho, eles acompanham, orientam. E também temos o empenho da Secretaria de Saúde”, diz.
Para a secretária, o desafio é motivar os pais com a educação para a saúde bucal. “Nós temos um processo de motivação de professores e diretores para que não deixem de participar do programa e vamos apostar nisso. Mas esse trabalho de orientação tem como motivação maior chegar aos pais, que eles exerçam esse papel em casa”, conclui.
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