Éder Azevedo |
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Yara Coelho mostra a sujeira deixada pelo Artibeus liberatus (no detalhe) na praça do Jd. América |
O inverno chegou e, no Jardim América, em Bauru, ele veio acompanhado de muitos morcegos, que se abrigaram em uma antiga figueira brava, que fica em uma praça da rua Pedro Correa de Oliveira. A “hospedagem” não agradou os moradores. A partir das 17h, os voadores tomam conta das ruas. Especialistas explicam: inverno é a época em que esses mamíferos saem de seu habitat e vão para as cidades, em busca de abrigo e alimento em abundância.
Jussara Amélia Dias Coelho, 62 anos, mudou-se para o bairro há aproximadamente um ano e meio. Desde o início do mês de junho, ela e os moradores sofrem com a presença desses animais silvestres.
“É horrível. Eles começam a sair da árvore umas 17h. São muitos e ficam voando baixo e defecando pela praça e também nas casas. A praça, que cuidamos com tanto carinho, está imunda. As paredes das casas também ficam sujas”, queixou-se a moradora, que reside com a irmã Yara Dias Coelho, 58 anos.
A população também abriu queixa na Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), por conta da figueira, que, além de abrigar os bandos de mamíferos, também está causando transtornos com suas grandes raízes, que destroem as calçadas e asfaltos.
A reportagem entrou em contato com a Semma e confirmou que um processo foi aberto para apurar se será viável a retirada da árvore. A resposta obtida foi a de que, nos próximos dias, uma vistoria será feita na praça.
‘Visitantes’
E quem seriam os “visitantes” que passaram a se abrigar na figueira? Por suposição e experiência, o biólogo com doutorado em ecologia e especialista em morcegos da Unesp de Araçatuba, Wagner André Pedro, aponta que são Artibeus liberatus.
Estes morcegos frugívoros são grandes, com listras claras largas nas cabeças e podem ser vistos pendurados nas árvores mesmo durante o dia.
“Eles podem estar usando a figueira em função do abrigo e do alimento, por conta dos frutos da árvore. O inverno é uma época em que, nas áreas naturais, geralmente há menos disponibilidade de frutos. E essa figueira tem uma frutificação assincrônica, ou seja, dá frutos em períodos diferentes. Então, eles fazem um uso oportunista desses recursos. Assim que acabarem os frutos, irão embora”, esclarece.
No ano passado, o JC noticiou, nesta mesma época, o incômodo de moradores da Aviador Gomes Ribeiro, no Altos da Cidade, que também sofriam com os animais. Atualmente, existem 172 espécies de morcegos só no Brasil.
Animais são da fauna silvestre e protegidos
O que fazer ao visualizar um morcego caído ou, até mesmo, dentro de uma residência? O ideal é tentar prendê-lo com uma caixa de papelão ou balde, por exemplo, evitando o manuseio.
A Divisão de Vigilância Ambiental da Secretaria Municipal de Saúde, através do Centro de Controle de Zoonoses (CCZ) informa que o morcego da fauna silvestre e protegido por lei, ou seja, sua eliminação é permitida somente em área rural (silvestre) e quando o animal se alimenta de sangue.
“Na área urbana, eles se alimentam de frutas ou insetos e somente atacam o ser humano para se defender. Sua eliminação é considerada crime ambiental”, alertou a prefeitura, em comunicado.
A divisão, através de nota da assessoria de comunicação, informou ainda que o CCZ realiza o recolhimento do animal apenas quando ele se encontra dentro da residência ou caído no chão. A orientação é para que, neste caso, o morador não mantenha contato direto com o animal e que, se possível, o mantenha imobilizado sob um recipientes como baldes e outros.
Outra orientação ainda é para que, em caso de aparecimento frequente do animal, a população vede vãos em telhados e muros que possam servir de abrigos aos morcegos.
Até o momento, não há registros de aparecimento de morcegos infectados com raiva em Bauru. Os últimos casos foram, na área rural, em 2006, e na área urbana, em 2010 e 2011.
Quando há o registro da presença do animal infectado, são realizadas ações de bloqueio na região do bairro. Envolve ainda vacinação de cães e gatos, investigação, captura de exemplares de morcegos para estudo e orientação à população com entrega de folheto educativo.
Quem encontrar morcegos nestas situações, deve acionar o CCZ através do telefone 3103-8050, em horário comercial, ou o Corpo de Bombeiros, fora do horário comercial, através do telefone de emergência 193.
Cuidado!
Nos cinemas, o morcego Batman é o mocinho das histórias, mas, na vida real, os morcegos, apesar de serem essenciais para o equilíbrio ambiental, podem tornar-se vilões na área urbana.
É o que explica a veterinária Luzia Helena Queiroz, que é especialista em defesa sanitária animal e responsável pelo laboratório de diagnóstico de raiva da Unesp de Araçatuba. Os morcegos frugívoros, por exemplo, também podem transmitir raiva. “Não são só os hematófagos que chupam sangue e podem ficar doentes”.
As fezes dos morcegos, que tanto incomodam os moradores do Jardim América, também podem transmitir graves doenças: uma delas é a criptococose, conhecida popularmente como doença do pombo. O correto, segundo Luzia, é fazer a limpeza com um pano, sempre protegendo as mãos e evitando a inalação.
Em caso de mordida ou arranhadura, o atendimento médico deve ser rápido para a aplicação de uma vacina antirrábica. A criptococose é uma infecção causada por fungos que se alojam no pulmão e, depois, podem se espalhar para o cérebro, causando a morte.
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