A frase acima, muito conhecida, é de Guimarães Rosa, um dos inspiradores de João Ubaldo Ribeiro, morto em 18 de julho, ocupante da cadeira 34 da ABL. Apesar de ter sido internado em maio, acometido de problemas respiratórios, a notícia da morte surpreendeu a todos. É mais um que fica "encantado", que se vai para sempre, de mansinho, sem avisar. Autor de mais de 30 livros, dentre os quais os mais falados são Sargento Getúlio, Setembro não tem sentido e Viva o povo brasileiro, JUR era um estudioso da língua portuguesa e um eterno garimpeiro de fatos pertinentes às origens do povo brasileiro.
Não vou mergulhar em dados de sua biografia, porque as informações a respeito serão, a partir de agora, fartas e muito mais completas que as minhas. Sou apenas uma apreciadora da literatura que faz dela um alimento diário, por isso, prefiro passar ao leitor minha experiência pessoal com JUR. Confesso não ter sido uma profunda conhecedora do autor, mas meu encontro com sua obra foi meio singular. Não me causou um impacto emotivo como, por exemplo, os livros de Clarice Lispector, Graciliano Ramos ou Guimarães Rosa, para ficar só nos brasileiros. Quando me caiu às mãos o romance O Feitiço da Ilha do Pavão, admito que levei um susto. Eu que me achava razoável conhecedora do nosso idioma, já na primeira página (que aliás, não passava de 20 linhas; uma página inteira tem o dobro disso) deparei com palavras estranhas: falésias (vá lá que essa, apesar de incomum, não era das mais difíceis), entrefolhos (estava lá no dicionário: esconderijo) e ruante (sinônimo: que faz roda com a cauda)... Pensei comigo, será que vai continuar assim? Continuou. Na segunda página, só para exemplificar, lá estavam palavrinhas como guisas (maneiras), coprolalia (necessidade de dizer obscenidades) e estriges (feiticeiras). E a busca ao dicionário continuou, até que o fervor verborrágico do autor foi amenizando gradativamente.
O cenário da obra é uma ilha isolada no Recôncavo baiano no tempo do Brasil colônia. Perdida em algum lugar por aí, é um espaço criado pelo autor para trabalhar suas ideias utópicas. Os personagens são índios aculturados, negros escravos, brancos que enriqueceram com o tráfico negreiro, apátridas e um quilombo subvertido em reino tirânico.
É uma aventura literária de JUR para mostrar algumas vertentes da formação do caráter do povo brasileiro. Trata-se de uma fantasia de nós mesmos, até hoje intrigados com o enigma de nossa raça que nos leva a indagar de onde viemos, como agimos em determinadas circunstâncias etc. O talento narrativo do autor, a facilidade de expressão afirmam-se nesta obra que ele, repetidamente, pretende ser apenas engraçada, mas que oferece mais que isso.
Rememorando esses aspectos com o leitor, senti-me impelida a ler de novo a obra. É possível que agora me sinta mais motivada e menos preguiçosa para bisbilhotar no dicionário. Mas, convenhamos que usar de vocábulos como nequícia (maldade, perversidade), algibebes (aquele que fabrica e vende roupa de fazenda ordinária), alfaia (jóia), chusmado (tripulado), fachudamente (lindamente) e quejandos, não é nada fácil nem animador. Em todo caso, como dizia Guimarães Rosa, viver é etcétera. Quem sabe aprender palavras novas, até mesmo palavras em desuso, faça parte desse etcétera, né não?
A autora é professora e colaboradora de Opinião