Mal superada a tristeza da trágica eliminação da seleção brasileira da Copa do Mundo, o país recebeu no último dia 18 de julho a notícia da morte do escritor baiano João Ubaldo Ribeiro. João Ubaldo foi um craque da literatura brasileira. Retratou com genialidade, através de seus personagens, a dura realidade de um povo cuja complexa formação da identidade nacional foi forjada na mistura de raças, credos e culturas. Membro da Academia Brasileira de Letras, escreveu obras que podem ser consideradas pilares da literatura brasileira, a exemplo de "Viva o Povo Brasileiro" (Nova Fronteira, 1984).
Comunista na juventude, o amadurecimento intelectual o fez abandonar as ideias de esquerda. Sua capacidade para o discernimento sutil dos dramas contemporâneos o fez dividir palco com outros gênios do pensamento conservador, como Nelson Rodrigues e Paulo Francis, confundindo mentes submetidas a ideologias partidárias e presas a conceitos teóricos que cultuam a unanimidade.
João Ubaldo se tornou um capitalista? Um liberal da direita? Um reacionário alheio às causas de minorias e desiguais? Creio que existem muitas nuances em seus escritos que possam mesmo confundir o senso comum. Mas o que de certo sobressai de seu pensamento é sua fúria contra a militância que pretende controlar todo setor da vida moderna e rotular tudo e todos no conceito do politicamente correto.
Seu último texto publicado no Estado de São Paulo ironiza a maneira como são editadas atualmente as leis "para tudo nessa vida", desde como educar os filhos até como "utilizar o papel higiênico". "Imagino que a escolha da posição do rolo do papel higiênico pode ser regulamentada, depois que um estudo científico comprovar que, se a saída do papel for pelo lado de cima, haverá um desperdício geral de 3.28 por cento". Obviamente que se trata de exemplo exagerado, mas, como andam as coisas, não tardará em aparecer algum defensor dessa causa, "tudo simples, como em todas as medidas que agora vivem tomando, para nos proteger dos muitos perigos que nos rondam, inclusive nossos próprios hábitos e preferências pessoais".
Sua fina observação prevê o catastrófico destino do homem pós-industrial, amarrado às coleiras tecnológicas que demolem o que de mais precioso e divino possui, sua privacidade e liberdade. A aliança entre o ativismo "desmiolado" e a tecnologia hoje em dia colocada à disposição "dessa gente que vem estabelecendo regra entre nós" resultará na utilização de drones e câmeras para o respeito "do que nos permitem ver nos balcões das farmácias, policiando o que dizemos em voz alta e podendo até punir uma risada que alguém considere hostil ou desrespeitosa para com alguma categoria social".
A crítica de João Ubaldo Ribeiro, exposta no exemplo surreal de seu humor literário, leva-nos a profundas reflexões de como lidaremos com o destino da nossa sociedade, ávida por transferir ao Estado até mesmo o controle de nossa intimidade e família, disposta a lançar mão de toda tecnologia, se assim necessário, para que a regra se faça valer. Enquanto isso, condutas de relevante potencial criminal não são tratadas com tanto cuidado... Mais que a sexta estrela da camisa da seleção, o pensamento de João Ubaldo Ribeiro nos fará muita falta.
O autor é delegado de Polícia Federal, classe especial,
em Bauru