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Árabes e judeus: procurando entender

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Doeu na alma a declaração do porta-voz israelense que qualificou o Brasil de "anão diplomático". Escarneceu da nossa "insignificância" no cenário global e ainda ironizou: "desproporcional é perder de 7 a 1 para a Alemanha". Vamos ter que carregar por muitos anos essa marca. O governo brasileiro que se diz "de esquerda" e, como convém em ano eleitoral, criticou Israel pela escalada de violência na Faixa de Gaza, considerando "desproporcional" a força utilizada para se defender. De fato, 800 pessoas já morreram nos recentes conflitos e 5.200 resultaram feridas, civis na maioria. Entre elas 185 crianças. Do lado israelense foram registrados 42 mortos. A resposta nada diplomática foi proporcional, sim, à estupidez que move todas as guerras.

O Itamaraty errou ao se omitir na crítica ao Hamas, grupo que domina a Faixa de Gaza, pelos foguetes lançados contra o território inimigo. Deixou apenas subentendido o direito de defesa. Desde os romanos, o que o legitima é a proporcionalidade da ação contrária. Seria incompreensível que o governo brasileiro expulsasse do nosso território o cozinheiro inglês Jamie Oliver, porque qualificou o brigadeiro e o quindim de "m....s", de tanto açúcar que carregam na receita. Atacou duas instituições nacionais sem se importar com o dever de cortesia de todo visitante. Kant considerava as críticas sempre justas. Se descabidas, nos davam a oportunidade de esclarecer o que não havia sido perfeitamente entendido. Se procedentes ensejam corrigir o que está errado. No caso, menos açúcar e leite condensado.

O Brasil tem ainda muito a aprender se quiser crescer na diplomacia e alinhar-se entre as potências. Falta coerência política. O Itamaraty ficou quieto na derrubada da monarquia na Líbia; na queda do regime egípcio; na guerra civil da Síria onde já morreram 170 mil civis. Emudeceu diante da anexação do território da Ucrânia pelo governo Putin, de olho na retirada dos embargos à carne bovina brasileira. Apenas um míssil disparado na Ucrânia matou em segundos 282 passageiros de um avião civil, sem que alguma vítima tivesse algo a ver com a briga. Aprendemos com o pragmatismo da escola deixada pelo ex-secretário de Estado norte-americano Henry Kissinger: "Os Estados Unidos não têm amigos. Têm interesses".

Quando em 1947 a ONU votou pela divisão do território palestino para permitir a criação do Estado de Israel e de um novo Estado Árabe, quem presidiu a sessão e colocou em pauta o melindroso projeto foi o diplomata brasileiro Oswaldo Aranha. Era um descendente de cristãos novos portugueses. Judeus imigrados para a Península Ibérica e que professaram o catolicismo para se livrarem da Inquisição. Os "convertidos" abandonaram os nomes oriundos da Torá e adotaram os relativos a coisas, animais, profissões, lugares. Como Oliveira, Machado, Ferreiro, Aranha...

O que a Opinião Pública global levou em conta, na ocasião, foi a necessidade de alguma reparação ao povo que havia acabado de sair dos horrores do Holocausto. A insatisfação em torno do mapa definido pela ONU gerou uma guerra civil entre os dois povos. Mas, ao término do conflito Israel já tinha ocupado parte do território destinado aos palestinos pela ONU. A Faixa de Gaza, com 41 quilômetros de comprimento por 6 quilômetros de largura tem 1,5 milhão de habitantes, a maioria refugiados árabes que perderam suas casas e quintais na guerra de 1948. Vivem numa infraestrutura precária e sem água. É uma das áreas mais densamente povoada do mundo. Os palestinos jamais aceitarão a perda dos seus lares. Em 2008 houve uma pré-edição do conflito atual.

O exército de Israel bombardeou mesquitas, pátios de escolas e casa de civis alegando que eram depósitos de armamentos. O Hamas, segundo seus inimigos,utiliza-se de templos e de crianças como escudos para os seus esconderijos de foguetes. A origem da escalada de violência dos últimos dias ocorreu com a morte de três adolescentes israelenses em junho, que teriam sido sequestrados e torturados por árabes. Como vingança um jovem palestino foi queimado vivo em Jerusalém. O grupo radical Hamas respondeu com foguetes contra Israel. Noventa por cento deles são interceptados pelas baterias antimísseis. Em contrapartida o exército israelita bombardeou o território inimigo, agora invadido por tanques.

É uma visão muito simplista dizer que judeus e árabes "sempre se odiaram e sempre viverão em guerra". Um dos principais pontos de discordância entre os dois povos, no início dos conflitos, era a existência de projetos nacionalistas diferentes. Ambos discordavam sobre o que fazer com uma Palestina independente: uma Palestina árabe ou uma Israel judaica? São dois projetos distintos. Um exclui o outro porque são dois projetos nacionais para um mesmo território.

O autor é jornalista e articulista do JC

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