O horizonte cinza denuncia. É tempo de queimadas. Indiferentes aos prejuízos que a fumaça representa à saúde e ao meio ambiente e aos riscos que o fogo dentro das cidades representam para a segurança de toda a comunidade, moradores mantêm o mau hábito de aproveitar o período de estiagem para limpar terrenos e eliminar o lixo acumulado no fundo de casa, nas calçadas e até mesmo em praças.
Alguns acidentes que podem ocorrer até mesmo com as pequenas queimadas são destacados pelo tenente Victor Felix Tozi Bomfim, do Corpo de Bombeiros, entre eles, as queimaduras e os problemas respiratórios provocados ou agravados com a fumaça.
“Muitas vezes, o morador junta o lixo para colocar fogo, mas não se atenta para o que pode ocorrer. Ele acha que as chamas podem ser controladas sobre aquele amontoado, mas basta um vento para que o terreno todo se incendeie. E todos os que moram ao redor sofrem com o fogaréu. Isso sem falar na queima da vegetação”.
Residências
Outro problema grave que comumente preocupa a população de bairros onde a queima de mato em terrenos baldios é constante é o perigo do fogo atingir as residências vizinhas a estes terrenos. De acordo com o tenente, é muito comum as chamadas do 193 indicarem tal preocupação. O tempo frio e seco, aliado aos ventos típicos da época, aumentam e agravam essas ocorrências.
Quem também alerta sobre a ameaça é o coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito. “É comum recebermos chamados de gente desesperada porque colocaram fogo em terrenos próximos às suas casas e as chamas estão ameaçando o seu lar. Ocorrências gravíssimas, que podem ameaçar vidas”.
Dobrou
A estiagem e a falta de conscientização da população dobraram o número de ocorrências de incêndio em Bauru. Segundo o Corpo de Bombeiros, os seis primeiros meses do ano registraram duas vezes mais casos em comparação ao primeiro semestre de 2013. Até junho deste ano, 584 ocorrências de fogo foram atendidas pelo corporação. Os números não distinguem os incêndios urbanos e os de mato.
Entretanto, o tenente Victor estima que ao menos 30% do total de ocorrências com fogo atendidas durante o ano coloquem residências em perigo por se concentrarem em áreas urbanas. Número que pode chegar a 40%.
Campanhas
O Corpo de Bombeiros tem parceria com a Polícia Militar Ambiental, Instituto Florestal e Fundação Florestal para realizar campanhas anuais contra incêndios. A corporação tem a figura do “bombeiro educador”, que semanalmente realiza palestras e, nessa época do ano, as queimadas são enfoque.
Já a Secretaria Municipal do Meio Ambiente (Semma), embora não tenha previsão de fazer uma campanha efetiva contra queimadas em 2014, disponibiliza e distribui material informativo sobre o tema, principalmente para as escolas. O material educativo informa sobre os perigos do fogo e orienta denúncias.
Crime ambiental
Ao contrário do que muitos possam pensar, as chamadas “queimadas urbanas”, por menores que sejam, são crimes ambientais passíveis de multas e processos. Em Bauru, quem for pego em flagrante fazendo queimadas está sujeito à multa e até mesmo prisão, conforme a gravidade do delito.
Durante a reportagem, a equipe flagrou inícios de incêndio em vários pontos da cidade. Em alguns casos, crianças brincavam nos terrenos em chamas. Todos, com muitas residências por perto (confira nas fotos).
“Juntar folhas ou recolher o lixo do quintal e colocar fogo em tudo.Queimar terrenos para limpá-los. O que, infelizmente, é rotina para muitos moradores, também é considerado crime ambiental. Temos legislações de vários órgãos governamentais, como a Companhia Ambiental do Estado de São Paulo (Cetesb), que proíbem claramente a queima de materiais aleatoriamente, mesmo que seja lixo doméstico”, lembra o tenente Victor Felix Tozi Bomfim, do Corpo de Bombeiros.
Ainda segundo o tenente, até mesmo os bombeiros, quando fazem treinamento contra queimadas, não podem fazer em qualquer lugar, precisam de autorização da Cetesb, aqui em São Paulo.
É sujeira?
As folhas que caem no outono/inverno e acabam virando “fogueira” podem ter destinos úteis. O coordenador da Defesa Civil de Bauru, Álvaro de Brito, lembra que as pessoas têm uma visão equivocada sobre as folhas, que não representam sujeira, necessariamente.
“Quem tem horta, por exemplo, pode aproveitá-las para fazer material orgânico. Mas é uma questão cultural, infelizmente. Isso acontece principalmente nos bairros periféricos, onde a quantidade de terrenos baldios ainda é grande e as pessoas têm vastos quintais”, ressalta.
Das vias respiratórias à mucosa ocular
Os malefícios que a fumaça das queimadas proporciona à saúde humana são inúmeros, e vão de problemas nas vias respiratórias à mucosa ocular. Quem alerta é o pneumologista Sebastião Antônio Benetti.
“O produto da queima da biomassa (folhas, galhos, etc) emite partículas no ar que são altamente prejudiciais a essas vias. E, nesses meses de inverno, estes quadros são agravados pelo tempo seco e mudanças bruscas de temperatura”, observa.
De acordo com Benetti, em pessoas expostas à fumaça proveniente das queimadas, é comum os altos índices de conjuntivite por irritação da mucosa ocular. Quanto à parte respiratória, a agressão se inicia nas vias superiores, causando rinites e irritação da garganta, queimação, tosse e, em alguns casos, até a perda de voz.
“As alterações mais graves são as pulmonares, que podem desencadear crises de asma e bronquite acompanhadas de forte falta de ar com chiado no peito e tosse, geralmente seca. Estes quadros costumam se instalar rapidamente e, muitas vezes, necessitam de atendimento de urgência. Devido a sua gravidade, podem levar à morte”, acentua.
Crianças e idosos
As pessoas mais afetadas por estas enfermidades são crianças, idosos e as que já apresentam antecedentes de quadros de rinite, asma ou bronquite.
Proteção
É muito difícil se proteger das queimadas, uma vez que não é possível saber quando e onde surgirão.
Porém, o pneumologista receita que, quando possível, é importante usar um pano limpo e umedecido como “máscara” para ajudar a filtrar os agentes suspensos no ar.
Defesa Civil de Bauru destaca outros maus hábitos de moradores que podem prejudicar a vizinhança
Pesadelo de muitos bairros, a falta d’água é presença constante em Bauru tanto quanto o desperdício dela. É fácil ver moradores “apagando” a poeira das calçadas e até mesmo das ruas com a água potável de mangueiras, principalmente no inverno. Este é apenas um dos maus hábitos individuais que podem afetar o coletivo. Conhecedor dos quatro cantos da cidade, o coordenador da Defesa Civil do município, Álvaro de Brito, aponta outros.
As podas drásticas em árvores também preocupam, já que é comum o hábito de cortar exageradamente os galhos e deixá-los encostados nos muros até secarem, sujando as calçadas e impedindo a passagem de pedestres.
Outro mau hábito é o acúmulo de objetos. “De maneira geral, todo mundo guarda supérfluos em casa, objetos que se acumulam nos quintais servindo até mesmo de criadouros para animais e insetos, com o mosquito da dengue, o Aedes aegypti. Se a aglomeração for de papel, há ainda o risco de incêndio”, grifa Brito.
Lixo e entulho
Comportamento que prejudica a limpeza urbana, apesar das campanhas educativas, os lixões improvisados ainda se espalham pelos bairros. Basta fazer um breve passeio para notar os móveis, material de construção e todo tipo possível de lixo que se acumula na cidade e prejudica até mesmo as galerias, obstruindo tais passagens de água da chuva.
Bons exemplos
Recentemente, um terreno todo foi limpo com fogo ao lado da residência do auxiliar de produção Cláudio Roberto Nascimento, localizada na rua Santo Garcia, na Pousada da Esperança I. A fumaça que entrou com força em sua casa levou, além da sujeira, o agravamento da bronquite do filho.
“Foi feia a coisa. A fumaça foi alta e atrapalhou o trânsito da rua, que é movimentado. Um perigo”, disse. Consciente, Cláudio acredita que cada um deve fazer a sua parte para melhorar o bairro onde vive. “É muito lixo e entulho jogado por aí. Eu, por exemplo, estou com obra em casa, mas aluguei uma caçamba para colocar o meu lixo. O que falta é isso, cada um fazer o seu, para melhorar para todo mundo”.