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Cascata de escândalos

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

Quando a gente pensa que o Brasil chegou ao fundo do poço da moralidade pública percebe que já roubaram o fundo e o poço. Os escândalos acontecem numa velocidade tal que é difícil acompanhar. Outro dia houve a denúncia de um esquema de perguntas e respostas arranjadas, na CPI da Petrobras no Senado. Congressistas e a alta cúpula da Petrobras articularam um teatro, simulando perguntas e respostas. Os membros da CPI fingiam que perguntavam e aqueles que devem explicações à nação pela desastrada compra de uma refinaria no Texas fingiam que respondiam. O presidente do Senado Renan Calheiros já anunciou que irá "investigar a fraude, com todo rigor". Vindo de quem detém zero de credibilidade, já se sabe que é mais um ato da pantomima.


O presidente da CPI, senador Vital do Rego, "indignado", encaminhou ofício à Polícia Federal pedindo que investigue a própria CPI. Seria compreensível rir da desfaçatez, não fosse o lado trágico da questão: US$ 792 milhões de dólares de prejuízos ao país. O Tribunal de Contas da União condenou os diretores da Petrobras envolvidos a ressarcir os custos dessa gestão temerária. Os advogados disseram que não estão preocupados pelos seus clientes porque os erros cometidos pelos gestores são garantidos por seguro da própria Petrobras. Os lucros da estatal caíram 25%. Os valores das ações despencaram.

O investidor norte-americano Paul Getty ficou biliardário comprando somente 5% das ações de cada empresa petrolífera. O "Senhor 5%", como ficou conhecido, dizia que o melhor negócio do mundo era uma empresa de petróleo bem administrada. O segundo melhor negócio do mundo seria uma empresa de petróleo mal administrada. Desde 2010 a estatal brasileira já perdeu metade do seu valor de mercado. Valia naquele ano R$380 bilhões e, agora está estimada em R$179 bilhões. Foi ultrapassada no ranking de maior empresa nacional pela Ambev, reles fabricante de cervejas. Se Getty fosse investidor da Petrobras, certamente teria revisto o seu conceito. No Brasil os preços dos combustíveis estão mais de 26% abaixo do mercado internacional porque este é o instrumento de que dispõe o governo Dilma para segurar a inflação. À custa dos acionistas. Milhares deles trabalhadores que confiaram parte do seu FGTS e atenderam ao convite para investir na empresa "orgulho nacional". Ainda bem que o fundo foi criado em 2000, e as ações tiveram fortes altas com as promessas de pré-sal, até que se descobrisse que o projeto não era lá essas coisas.

A escalada de escândalos e de danos ao patrimônio começou com o jipe importado que Sílvio Pereira, secretário-geral do PT, recebeu da empreiteira GDK, fornecedora da Petrobras. O ato explícito de corrupção foi descoberto ainda no governo Lula, em meio ao escândalo do mensalão. Abriu-se a primeira janela para mostrar o nada saudável relacionamento dos petistas com a empresa estatal. Ainda não começaram as investigações sobre indícios de superfaturamento da Refinaria Abreu e Lima, em Pernambuco. Orçada em US$ 2,3 bilhões, já passou de US$ 18,5 bilhões e irá além de US$ 20 bilhões até a inauguração.

Na esteira dos escândalos, surge o da infiltração de informações mentirosas contra jornalistas na enciclopédia livre Wikipédia. A manipulação do site injuria, difama e calunia Miriam Leitão e Carlos Alberto Sardenberg. Teve origem na rede de computadores do Palácio do Planalto. Alguém em atividade no poder central da República plantou as mentiras contra dois profissionais respeitados. É uma tentativa de desqualificar o trabalho de ambos, somente porque têm capacidade de refletir sobre a realidade brasileira, sem vínculos com o poder.

Lá no Planalto alegam que é "impossível descobrir o autor", porque os arquivos são apagados depois de seis meses. Manter gravado tudo o que é produzido no centro de decisões do país seria o mínimo. O custo é baratíssimo. Se não o fazem é porque não há interesse. O uso das estruturas do governo a serviço de difamadores não pode ficar sem resposta. A liberdade de expressão somente será plenamente exercida se todos se submeterem às consequências de seus atos. A revogada Lei de Imprensa vedava o anonimato e estabelecia o princípio da responsabilidade objetiva, em efeito cascata. Se o autor é desconhecido, responde o diretor, se não tem diretor a culpa recai no "dono da casa" que, se nãovigia seus empregados também deve pagar pelo que fizeram sob suas barbas (ou saias).

O autor é jornalista e articulista do JC

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