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Ninguém dorme em Rafah

João Pedro Feza
| Tempo de leitura: 2 min

Rafah, cidade palestina ao sul de Gaza, já pertinho de fronteira egípcia, tem a mesma população da Lins ? a 102 quilômetros de Bauru, 400 de São Paulo. Em Rafah, seus moradores estão a pouco mais de 20 km da capital palestina, Gaza. Só passei uma vez por Lins, voltando de Brasília. Pareceu-me uma Marília menor.

Tenho certeza de que as últimas 48 horas foram de certa tranquilidade na simpática Lins. O município comprou sete caminhões com R$ 3 milhões financiados do BNDES. Alberto Bial, irmão mais velho do Bial global, é o comandante do basquete linense para o Paulista ? isso graças a uma parceria com o Basquete Cearense, de Fortaleza. Basquete Cearense é Linense no Estadual. Boa confusão (ou co-fusão) para a cidade paulista. Em Gaza e Rafah, a confusão envolve fuga, ferimentos, balas arremessadas (não bolas) e choro (não de emoção esportiva).

Rafah e Gaza sentem a realidade de duras disputas nas quadras de suas ruas.  Como se toca a vida assim? Como acordar e comprar pão? Quem dorme em Rafah? Quem vai amanhecer em Gaza? A paz opaca não renasce dos escombros. Esperanças vão pelos ares entre uma trégua e outra.

Como sempre, o povo é que se ferra. As crianças choram sem entender ao certo. É terrível acompanhar essas coisas todas do conforto da sala de casa. Como será uma sala de casa em Gaza? E, enquanto as Brigadas Ezzedine al Qassam (braço armado do Hamas) colocam o que querem aos negociadores palestinos, mediadores egípcios buscam algo novo para um desfecho menos sangrento.

O conflito de US$ 1,5 bilhão para Israel já tem saldo de quase 70 soldados israelenses mortos ? e mais de 1.800 palestinos abatidos (cerca de 500 eram crianças ou adolescentes, segundo agências internacionais). Gente em forma de números. Subtração de vidas.

Se a guerra acabar hoje, ainda não terá sido a solução. O ódio tem lá suas complexidades a atravessar gerações. Alguém aqui em Bauru ou aí em Lins pode responder: por que brigam tanto, e a tanto tempo, por lá? É preciso um curso inteiro de história para explicar direito. É preciso abstrair nossa própria humanidade para entender um pouco. 

O autor é editor executivo do JC

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