Bairros

Minha Vila, meu lar

Ana Paula Pessoto
| Tempo de leitura: 2 min

A música como relíquia

Cerlene Oferni Miranda, 65 anos, é prova de que a arte acompanha o ser humano pelo tempo e é capaz de quebrar barreiras. Uma das artistas da casa, ela emociona quando toca o antigo piano, um presente do pai que ela protege como o seu tesouro.

Há 10 anos vivendo no abrigo, a ilustre moradora despreza o mal de Parkinson e emociona quem a ouve tocando o piano sem partituras. “Eu aprendi a tocar quando tinha 5 anos de idade, em um colégio de freiras. O piano foi um presente do meu pai. E é a minha relíquia”.

Vez ou outra, Cerlene toca para funcionários e demais acolhidos. Tocou para a reportagem. E foi emocionante.

Passado

No passado, ela chegou a concluir a faculdade de serviço social, mas a depressão e a ansiedade a impediram de exercer a profissão. “Eu não tenho família. Mas, aqui, tenho amigos que me ajudam a viver”, disse, emocionada.


‘Senhora das flores’

Com o sorriso contagiante e de braços abertos, dona Benedicta Florêncio é uma das mais novas acolhidas na Vila Vicentina.  A alegria e a disposição da “menina” que nasceu em 1928 são irresistíveis.

Vaidosa, a senhorinha mostra com orgulho cada cantinho do seu quarto, decorado com capricho e com seus objetos preferidos. “Olha, eu gosto muito de flores, por isso espalho por onde posso, inclusive nas paredes”.

Entre as flores, fotos de família, tapete artesanal feito por ela, dona Benedicta também mostra com orgulho a medalha conquistada pelo segundo lugar na competição de dominó no “I Jogos Abertos da Vila Vicentina”, realizado na última semana de julho, em interação com o abrigo de Piratininga. “Eu fui a segunda colocada”, conta a “senhora dos sorrisos”.


Parceria e amizade entre os acolhidos

Uma característica marcante entre os moradores da Vila Vicentina é o vínculo de amizade criado entre eles, especialmente pelos que dividem o quarto. Ângelo Gonçalves, 79 anos, e José Luiz Martins, 58 anos, são parceiros até na torcida pelo time do coração. Corinthianos, eles decoraram o quarto com almofadas, quadros, pôsteres, canecas... Tudo do “Timão”. E a amizade entre os dois fez de “seu” Ângelo uma espécie de guardião do amigo.

“Gosto dele como um irmão mesmo. Eu nasci em Pernambuco, mas fui criado em São Paulo. Fui caminhoneiro e, um certo dia, me deu na cabeça viver em Bauru. Aqui, eu tenho a tranquilidade que preciso. Se eu for contar todas as minhas histórias, dá um livro muito longo...”, diz um dos moradores mais antigos da Vila, já que está na casa desde 1995. 

Comentários

Comentários