A literatura de psicologia do comportamento descreve que entrar no mundo dos adultos, sentimento desejado e temido, significa para o adolescente a perda definitiva de sua condição de criança. Porém, o momento é uma dessas fases únicas na vida de um homem. E, conforme especialistas, isso se constitui em etapa decisiva de um processo de desprendimento que começou ainda no nascimento do agora “pai menino”.
Mas até a avaliação e reação em torno da paternidade precisa levar em conta múltiplos elementos. O psicólogo Arnaldo Vicente, especialista em terapia cognitiva, enfoca o confronto entre o jovem e o adulto nessa situação.
“Tornar-se forçosamente um ‘chefe de família’ numa fase onde se deseja ser o líder da turma, o objeto dos desejos das garotas ou mesmo o destaque no colégio, no cursinho ou no início da universidade, é realmente uma grande dificuldade ou, no mínimo, grande desafio para os pais adolescentes”, situa.
Ele não poupa que, nesse estágio de vida, a maioria deles só sabem precisamente o preço do lazer, “mas ignoram o valor da moradia, da alimentação e, ás vezes, até dos próprios estudos”. Estas considerações reforçam a necessidade do acolhimento e amparo imediato aos meninos, evitando graves consequências decorridas do desespero pelo imprevisto e da falta de esperança em poder superar esta fase.
Assim, para Vicente, manter os vínculos familiares, sociais, acadêmicos e profissionais, quando estes existirem, é primordial para que a nova família inicie sua jornada.
Mas, afinal, o que significa, ser pai menino? No limite da identificação, o terapeuta aponta, “em primeiro lugar significa passar a vivenciar o outro lado de uma relação a qual ele só conhecia como filho para tornar-se um “novo pai”.
Mas se esta convivência - entre o menino e seus pais - ocorreu num contexto bem estruturado e com um bom entendimento, o impacto emocional será menor. “Pois ele tenderá a sentir-se amparado, emocional, espiritual e financeiramente”, ressalta. E, daí, o enfoque ficará sobre o papel que terá como “novo pai”, levando-o a crer que é possível enfrentar e vencer mais este desafio na sua vida.
Mas, por outro lado, se a convivência com seus pais foi e está desestruturada, o jovem, menino ou adolescente poderá se sentir desamparado, incapaz. Então, o papel de “novo pai” será uma grande ameaça para sua vida.
“Ou seja, a convivência entre o menino e seus pais, ou com aqueles que o criaram, vai influenciar diretamente em suas primeiras reações para esta nova fase de sua vida, o que não significa que o menino não possa reelaborar seu ponto de vista e responder gradualmente de forma amadurecida ao novo papel”, avalia o psicólogo cognitivo.
Mas as reações do “novo pai” também será influenciada pelos sentimentos que tem em relação a sua parceira.
Arnaldo Vicente pontua que um menino apaixonado reage com entusiasmo e pode ver a gravidez como um fator de segurança que vai levar o casal a ficar juntos para sempre. “Um menino que apenas ficou com uma desconhecida reagirá com muita ansiedade e aversão a gravidez, podendo chegar a sugerir que a parceira faça um aborto”, adverte.
De qualquer forma, para Vicente, a maioria reage como se estivesse diante de uma interrupção de sua rotina e planos de vida. E isso se dá porque, em geral, ele encontram-se numa fase de indefinições. Fase esta, diga-se, própria da idade, mas cujo contexto torna-se multiplicado com o papel de ser “pai menino”.
Um pai em gestação
Durante a gestação pais meninos experimentam sentimentos muitas vezes contraditórios. Na visão de Arnaldo Vicente, inicialmente esses jovens demonstram muita surpresa e insegurança diante de uma notícia que não esperavam. “Podem ficar tentando negar que isto pudesse estar acontecendo com eles, pois estavam muito confiantes de que poderia acontecer com os outros, mas nunca com eles mesmos. Mas isso acontece por um tempo”, pontua Vicente. Em seguida, frequentemente, esses jovens demonstram, primeiramente, uma reação de raiva com a parceira. Depois, adverte o psicólogo, “é inevitável sentirem a decepção consigo mesmos, confirmando o despreparo e o receio de não darem conta de se responsabilizarem por uma situação que não escolheram”. Eles evitam falar sobre o tema, mas o terapeuta descreve que nos primeiros meses os “pais meninos” falam da situação como se falassem de uma gravidez virtual. É como se o fato não fosse dura a vida toda. “Depois gradualmente vão se conscientizando que em breve receberão uma criança, um bebê que os batizarão de ‘papai’”, acrescenta.
A partir daí, então, eles iniciam uma passagem da fase do receber para a fase do oferecer, do cuidar, o papel do novo chefe de família provedor. “Todos esses movimentos podem ser acelerados positivamente quando os pais meninos são amparados pelas duas famílias dos ‘novos vovôs’, acolhendo os futuros papais com respeito e afeto”, insiste Arnaldo Vicente.
Felipe ‘espera’ primeiro filho
Felipe Campos, 20 anos, está de braços dados com Ana Laura no Facebook, antes e depois do momento em que soube que seria pai. Assim para como os demais, a boa nova foi recebida com apreensão, dúvidas. Mas ele está, garante, enfrentando com ânimo seu novo papel. Seu filho deverá nascer em dezembro próximo. Ele é filho único e tem relação familiar estreia com a mãe. Veja o que Felipe respondeu sobre o papel de ser pai:
Jornal da Cidade – Que reação você teve no instante em que soube que vai ser pai?
Felipe Campos – A primeira sensação foi de surpresa pois não foi planejado. Parei e pensei “e agora o que eu faço?”. Porque no primeiro momento parece que é algo ruim, mas só depois de conversar com os pais e amigos comecei a perceber a bênção que era e que, apesar das dificuldades, é algo maravilhoso e que em pouco tempo isso me ajudou a amadurecer rapidamente.
JC – O que já mudou em sua vida até aqui, a partir do início da gravidez de sua namorada?
Felipe – Só de saber que o bebê esta vindo ao mundo já amadureci muito. Tenho outra visão sobre a vida.
JC – A sua mãe te apoia, faz cobrança? Como você reage a isso tudo a partir deste momento?
Felipe Campos – Minha mãe apoia sim e sempre cobra atitudes corretas. Nunca tivemos problema com isso.
JC – Tem algo que vai mudar em seu plano de vida, com estudo ou trabalho em função do papel de ser pai?
Felipe Campos - Não vou mudar. Vou continuar a faculdade porque os estudos são primordiais e vou continuar trabalhando. Eu estudo no período noturno, faço publicidade e propaganda na Unip. E trabalho na Telefonica.
JC – O que é ser pai para você?
Felipe – É dar início a uma nova fase, criar mais responsabilidades. Crianças são uma bênção, é ter alguém como protegido, viver para pensar no futuro que essa criança vai ter e trabalhar para construir isso.
JC – O que você quer para seu filho?
Felipe - Para mim nunca faltou nada, mas quero que ele tenha as oportunidades que eu não tive. Quero deixar uma mensagem aos jovens: encarem a notícia como uma coisa boa e nunca pensem pelo lado ruim. Gravidez é um momento maravilhoso e se deve acompanhar cada momento com a mãe, desde o primeiro enjoo até o primeiro chute do neném na barriga da mãe. Ser pai é algo inexplicável.