Geral

Elas se emprestam quase tudo

Nélson Gonçalves
| Tempo de leitura: 4 min

Desprendimento, interação social e fortalecimento de vínculos, sobretudo a partir da adolescência, levam jovens a exercitar com liberdade e frequência o hábito de se emprestar roupas e calçados. O comportamento, tipicamente feminino, chega a ser tão comum que grupos de amigas se formam em uma espécie de rede social particular onde tudo – inclusive o que comer, onde ir e compartilhar sofrimentos e alegrias – parece pertence a todas.

A formação de grupos sociais e os laços de amizade formam, a certa altura, uma sistemática de empréstimos tão corriqueiros que uma amiga consulta a outra, ou não esqueça dela, na hora de efetuar uma compra. “A essa blusa pink eu não quero, porque já tenho aquela que está no guarda-roupa da Carol”, raciocina, na prática, Luiza, na hora de decidir pela compra ou não de um novo item de seu vestuário.

Algumas guardam peças pessoais, aquelas que não estão no rol das roupas e sapatos a serem emprestados. Mas muitas das amizades consolidam tal desprendimento que nada é reservado, inclusive peças íntimas, para desespero das mães. Mas a ausência de regras ou o esquecimento geram, em algum momento, pelo menos algum desconforto. É quando uma integrante do grupo precisa daquele vestido e, em cima da hora, lembrou que a peça está na casa da amiga há semanas.

Quem se empresta roupas e sapatos também leva em conta alguns critérios esperados. O tamanho do manequim é compatível, a depositária da peça deve demonstrar, ao longo das trocas, cuidado com a manutenção e limpeza com o que “não é seu” e é bom não repetir muito o mesmo item, para que aquela saia descolada” também não vire “carne de vaca” junto à turma.

O fato é que, observadas as características de comportamento e respeitadas exigências comuns ao grupo, o hábito de emprestar roupas e calçados entre jovens vêm ganhando adeptos da economicidade, praticidade e, o mais importante, do fortalecimento de vínculos de amizade e convivência com o olhar do outro.


Trio de moças

Caroline Cândido é prima e amiga de Luiza Silvestre, que é amiga de Naiara Martini que, por sua vez, é muito ligada a Carol. As três literalmente não se desgrudam, seja no compartilhamento do guarda-roupa, seja na agenda de lazer em comum.

Até para entrevistar as moças foi necessário falar em grupo. Como Carol estava em Recife (PE), na última quarta-feira, elas responderam, conjuntamente, a uma série de perguntas em comum pelo WattsApp, ferramenta que as três “mosqueteiras” não largam por nada.

Habituadas a emprestar roupas e sapatos, o trio aponta respostas iguais, claro, para várias das questões colocadas no grupo. Elas compartilham além do vestuário, contam. “Somos muito amigas, temos os mesmos gostos, confiamos uma na outra e temos o mesmo manequim praticamente. Emprestamos até brincos, colar e pulseiras”, comenta Caroline.

O ritual de empréstimo não veta nenhuma peça, mesmo aquele vestido especial, garantem. “Tudo entre nós pode ser emprestado entre si. O hábito é tão comum que sempre esquecemos alguma coisa uma na casa da outra”, amplia Carol, com o consentimento de Luiza.

Apesar da política de boa vizinhança, o empresta aqui e lá gera algum desconforto quando acontece algum acidente. “Se for uma peça de valor maior, mais elaborada e manchar ou rasgar, sobra sim um bico por algumas horas, mas depois conversamos com quem aconteceu o acidente e volta tudo ao normal”, cita Carol.

Luiza se mostra mais desprendida se algo der errado no uso de sua roupa por uma das amigas. “Eu confio nelas, se aconteceu sei que não foi por mal. Mas nunca aconteceu e se acontecer eu compro uma peça nova”, aponta. Naiara emenda: “imprevistos podem acontecer com tudo. Se der, damos um jeito. Se não der, não tem problema”, opina.

Se uma blusa ou calça cair melhor no corpo da amiga, tudo bem, garantem. “Fica como se fosse presente”, diz Carol. “Parece até que eu compro algumas vezes pensando nelas e se ficou melhor nelas o emprestado fica pra sempre”, observa Luiza. “Se eu gostar muito da peça eu divido, mas se ficou bom só em uma delas eu prefiro que fique com quem vai aproveitar melhor ou mais do que eu”, fala Naiara.

De tanto emprestar, algumas peças assumem a identidade alheia. “Gosto tanto de um ‘tomara que caia’ da Naiara que já uso achando que é meu”, revela Luiza. E isso vale para pulseira, sapato, brinco... etc.

Outro ponto em comum é que a variação entre lugares (baladas) e roupas, entre si, ajuda na renovação frequenta do visual. “Tem dia que não quero sair porque acho que não tenho roupa e ai as amigas salvam”, diz Luiza. Naiara conta que o artifício reduz a chance “da roupa ficar manjada, marcada no lugar”.

Para o trio de jovens, o hábito de emprestar “fortalece a amizade, gera economia porque dispensa que todas comprem roupas e sapatos o tempo todo”, amplia o repertório do guarda-roupa e “faz a gente se sentir bem e próximas, mais amigas”, finalizam.

As amigas Larissa, uma Carvalho e a outra Goulart, não só compartilham calçados, blusas e saias como chegam a discutir, com frequência, as opções de acordo com o calendário da ocasião. “Se aparece uma festa especial eu aciono a Larissa para garantir a bota de mais estilo em dia de frio, por exemplo”, diz a moça de sobrenome Carvalho. A amiga, Goulart, confirma que “a festa especial merece acesso a uma peça mais elegante do guarda-roupa da amiga”, resume.    

Comentários

Comentários