Cidadania é capacidade de participar, de influir e de usufruir de ações de governo através de atuações ativas e positivas e, ainda, de recepções de benefícios públicos com características individuais ou coletivas emanados da atuação governamental. Governo e cidadania constituem realidades diversificadas que se completam para aprimorar, qualificar e diferenciar a convivência societária. Nosso Município abriga centenas de comunidades que praticam voluntariamente ações que dignificam a virtude da caridade e que desenvolvem inúmeras e quase invisíveis ações de filantropia numa imensa rede de anônimos serviços de socorro mútuo disponível para acudir quem quer que se encontre em situação de dificuldade que não pode ser superada por esforço próprio ou, então, por intervenção governamental.
Por aqui temos muito orgulho porque conseguimos sacrificar interesses pessoais e parte de nosso tempo para acudir necessidades individuais e coletivas de nossa comunidade e cada um de nós que por aqui vive e convive desfruta da certeza de que somos povo generoso que confere especial relevância participativa na superação de carências comunitárias. Excelentes exemplos de cidadania não nos faltam nos esforços consumidos em favor de nossas instituições beneficentes, de nossas creches, de nossos programas assistenciais e de certas situações individuais que dependem de amparos específicos.
Nossa reconhecida generosidade, entretanto, não tem conseguido ser eficiente diante de nossa realidade político-administrativa e dos programas de nossos órgãos de representação política. Aparentemente as quase pessoas políticas que se completam na estruturação municipal (Prefeitura e Câmara Municipal) e que são diretamente responsáveis pelos mecanismos de articulação e produção essenciais à boa qualidade de vida comunitária se situam e atuam como centros de poder quase ignorados e indiferentes à cidadania que muito pouco ou quase nada recebem de influência e participação originada dos cidadãos. Infelizmente - e isso se afirma com respeito - nossa cidadania não tem sido generosa com o poder político municipal não acompanha suas ações e pouco influi e participa nos seus atos de gestão mesmo podendo fazê-lo. Ainda que venha a sofrer com eventuais e amargos resultados que deles possam decorrer.
Fatos político-administrativos geradores de preocupações até alarmantes não têm grande repercussão perante a cidadania. Pelo JC, o empresário Ricardo Coube cobrou com lucidez a recuperação de nossa capacidade de articulação política e ergueu bandeira em favor do desenvolvimento municipal e regional que, infelizmente, permanece a espera para ser desfraldada. O mesmo JC quase diariamente está noticiada nossa baixa capacidade de investimento e o perigoso endividamento diante da queda da arrecadação influindo na execução orçamentária, tudo isso com reflexos insatisfatórios na qualidade de muitos dos nossos serviços públicos essenciais. Nesse quadro negativo e de risco que prejudica e compromete a qualidade de vida, nossa generosa cidadania permanece indiferente. Muito pouco ou quase nada se vislumbra que demonstre sua preocupação, participação e influência.
Essa inexplicável postura omissiva, incompatível com nossa generosidade, frustra e limita nossas expectativas futuras e reclama nosso esforço coletivo para superação. Afinal, nosso futuro diz respeito especialmente a todos nós e parece um tanto quanto temeroso abdicarmos de nossa plena cidadania para deixá-lo aos cuidados exclusivos de injunções políticas.
O autor é advogado e articulista do JC.