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Agosto, o mês

Zarcillo Barbosa
| Tempo de leitura: 4 min

A morte de Eduardo Campos, num desastre aéreo em Santos é mais uma tragédia ocorrida na política brasileira, debitada para o mês de agosto. Rima com desgosto. Neste mesmo mês ocorreu o suicídio de Getúlio Vargas (1954). Juscelino Kubistchek morreu em acidente rodoviário (1976), no momento em que se preparava para voltar ao cenário político, depois de cassado pelo golpe de 1964. O presidenciável Eduardo Campos era neto do histórico político pernambucano Miguel Arraes. Ambos morreram num 13 de agosto. Sem a mesma fatalidade, Jânio Quadros renunciou ao mandato de presidente da República em agosto de 1961 e assim abriu caminho à ditadura. A trombose que afastou o presidente Costa e Silva do governo aconteceu em agosto de 1969, quando foi substituído por um Triunvirato Militar - ministros do Exército, da Marinha e da Aeronáutica - chamados por Ulysses Guimarães de "os três patetas". A crise política que levou ao impeachment de Collor também atingiu seu ponto irreversível no mês de cachorro louco, para eclodir no dia 2 de outubro de 1992 com a sua saída do Palácio do Planalto, de nariz empinado e de mãos dadas com a então mulher. A maior crise do governo Lula também começou a atingir níveis irreversíveis num mês como o atual, quando o aumentativo "mensalão" grudou feito chiclete, prosaicamente traduzido pelo New York Times como "big monthly allowance" (grande pagamento mensal).

Outras tragédias marcaram a história política do Brasil, sem nada a ver com o mês dos azares: o assassinato de João Pessoa foi o estopim da Revolução de 1939. Marcos Freire, outra liderança jovem de Pernambuco, perdeu a vida em acidente aéreo (1987). Ulysses Guimarães, o "Senhor Diretas" e Severo Gomes caíram no mar a bordo de um helicóptero, com suas esposas. O corpo de Ulysses jamais foi encontrado. "Nenhum homem é uma ilha", dizia o poeta John Donne. Quando morre um ser humano, quem perde é o "continente", ou seja, toda a humanidade. "Por isso não pergunte por quem os sinos dobram. Eles dobram por ti". É uma tirada poética e filosófica antiga, do século 18, mas muito bonita e com um pé na realidade. Pior quando morre um líder no qual parcela do povo depositava muitas esperanças. Independentemente de partido e ideologia, a perda de um jovem político tem conotações negativas num país que passou por 21 anos de ditadura militar (1964-1985). Neste período toda uma geração talentosa, politicamente forjada nos debates nos centros acadêmicos foi dizimada, antes de formar quadros num ambiente de liberdade institucional. Outra grande tragédia brasileira.

A morte do candidato à Presidência da República, a sete semanas da eleição lança diversas incertezas a respeito da disputa eleitoral. Sua vice, Marina Silva, desponta como substituta natural do pernambucano, e deve ser referendada pela coligação montada em torno de Campos. Marina já foi candidata em 2010 e sua participação foi apontada como um dos fatores que levou ao segundo turno uma eleição que parecia ser favas contadas para Dilma Rousseff. O capital político que ela acumulou com perto de 20 milhões de votos recebidos fez de Marina a "noiva cobiçada" por partidos. Principalmente depois que o seu grupo, a Rede Sustentabilidade, não conseguiu registro na Justiça Eleitoral a tempo de lançá-la candidata. Ela é considerada uma "estranha no ninho" do PSB porque pretende tomar rumos próprios no futuro, com a sua Rede. Não é como Campos, que transitava da esquerda para a direita e vice-versa. O ex-governador de Pernambuco foi ministro da Ciência e Tecnologia no primeiro mandato de Lula. Passou a criticar a presidente Dilma Rousseff por suas alianças com figuras nada respeitáveis da política, como o senador Renan Calheiros (PMDB). Na entrevista que deu ao Jornal Nacional, na véspera de sua morte, Campos ainda afirmou que "esse governo é o único governo que vai entregar o Brasil pior do que recebeu".

Se Marina vai tirar votos de Dilma ou de Aécio - ou dos dois -, capitalizando o lado emocional da tragédia, ainda é exercício de adivinhação. Porém, frase dita por Eduardo Campos na mesma entrevista à Rede Globo pode ser adotada pelos brasileiros de todas as tendências políticas, em sua homenagem: "Não vamos desistir do Brasil!"

O autor é jornalista e articulista do JC

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