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Há 25 anos, uma das vozes mais transgressoras do rock nacional se calava. No dia 21 de agosto de 1989, morria Raul Seixas, o cara que de fã de carteirinha (literalmente) de Elvis Presley, passou a compositor e cantor e desenvolveu um estilo próprio, muito rock’n’roll, mas trazendo elementos da música brasileira em uma mistura original e imortal. Raul construiu uma carreira com composições ecléticas, viajando por estilos distintos em, clichê à parte, uma metamorfose ambulante.
Com postura ousada, Raul fez músicas que ironizavam a ditadura militar no Brasil (acabou torturado e exilado por isso), mergulhou em teorias de Aleister Crowley para apresentar sua “Sociedade Alternativa”, ganhou ares místicos com “Gita”, foi cowboy, carimbador do espaço, e Maluco Beleza em uma obra cheia de referências filosóficas, literárias, psicológicas e cultuada por gerações de fãs. Um quarto de século depois de sua morte, Raulzito segue símbolo do rock brasileiro e sua obra foi reforçada por lançamentos póstumos.
O trabalho de Raul Seixas é composto por 17 discos em um total de 299 obras e 322 fonogramas cadastrados no banco de dados do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad) e Raulzito é um dos artistas mais regravados e executados no Brasil. Quem nunca ouviu a famosa frase em shows: “toca Raul!” Para comentar sobre os 25 anos da morte de Raul, o Jornal da Cidade ouviu músicos bauruenses, que falaram sobre a influência da obra e postura do cantor e compositor e do legado que deixou.
“Ele me inspirou, é um ícone do rock’n’roll. Foi buscar no Elvis Presley, se espelhou no blues, rock, para poder fazer esta mistura de estilos. Como a música ‘Let Me Sing, Let Me Sing’, em que ele faz a mistura de ‘Asa Branca’ com um rock do Elvis em inglês. Ele retrata o Nordeste junto com o rock’n’roll. Isso me marcou, esta combinação de estilos musicais. Ele buscou a raiz do rock para criar o estilo dele. Assim como Elvis seria como um negro norte-americano. O Elvis, um branco, nasceu em um bairro negro, pegou aquelas influências do blues. O blues é pai do jazz, avô do rock’n’roll, bisavô do hully gully e tataravô do funk. Uma música do Raul que tem a influência do blues e do funk é ‘Não Pare na Pista’, a quebrada que ela tem é o verdadeiro funk lá dos anos 70, da Motown. É um artista que não tem como comparar, é inigualável, assim como não tem outro Elvis.” - Maestro Luiz Corrêa, músico
“O lado rock’n’roll dele sempre foi uma inspiração para mim. Como mensagem e proposta, uma mensagem de vida, de vivência. Ele tinha muito isso e conseguiu passar para quem o ouvia. A gente sempre assimilou. E musicalmente também, ele é um precursor. Eu ouvi pouco rock brasileiro, mas grande parte era Raul. Como sou músico atuante profissional, tudo que eu toco, tive que ouvir. E Raul tive que ouvir muito. Tem uma frase característica dos lugares onde você vai que é ‘toca Raul’. E não toque para você ver... As pessoas costumam morrer e suas obras tendem a diminuir. Mas o que o Raul deixou continua vivo. O jovem, não sei se por causa dos pais, dos avós, acompanha muito bem o Raul. Por causa desta coisa de vida, não tem um padrão de comportamento humano na obra dele. A obra fala de vida e a vida sempre vai estar atual.” - Norberto Motta, músico
“Acho que Raul é para música brasileira o que Elvis é para o rock mundial. Tem todo o lance de postura também. Foi o cara que mais despertou meus questionamentos. Até os anos 90 tudo era mais fechado, você não tinha tanta informação. E o Raul vinha, através de frases feitas que ele criava de uma maneira poética, trazendo coisas que, quando você ouvia, pensava: então talvez não seja bem aquilo que diziam na escola, na igreja. Fazia você buscar informações que ele de repente teve acesso de ler (Friedrich) Nietzsche (filósofo, crítico cultural, poeta e compositor alemão). Em relação ao som, criou em todos os estilos. Independentemente da sonoridade, o Raul foi o cara que meteu a pedra no sapato nos bons costumes. O trabalho dele inteiro é muito rock’n’roll pela atitude. Às vezes, a gente vê críticas, tem gente que fala que Raul era um bêbado. Mas na arte, as pessoas que tiveram mais sensibilidade tentaram desta forma anestesiar as dores do mundo. Noel Rosa, que fazia samba, morreu jovem também e o próprio Nietzsche. Todos que questionam acabam se desenquadrando. No caso do Raul, foi efeito colateral de todo o questionamento. Tem uma frase dele que mudou minha vida: antes de ler o livro que o guru lhe deu, você tem que escrever o seu.” - André Turco, músico
