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Camelôs fora das calçadas

Pedro Grava Zanotelli
| Tempo de leitura: 3 min

As quadras das ruas transversais do centro da cidade, entre a Ezequiel Ramos e a Av. Rodrigues Alves, da Virgílio Malta à Antonio Alves, viraram um camelódromo. Começou com vendedores de lanches e evoluiu para uma grande variedade de produtos. Um comércio que era ambulante tornou-se fixo, com barracas plantadas nas calçadas, provocando reclamações dos comerciantes legalmente estabelecidos, dificultando a movimentação dos transeuntes e dando um aspecto desagradável à cidade. Várias tentativas foram feitas para localizá-los em outro lugar, como o ?lanchódromo?, na Av. Nações Unidas e o ?camelódromo? na Praça Machado de Melo e na Av. Nuno de Assis, nos fundos do Fórum. A intenção era, também, dar melhores condições para eles trabalharem, inclusive com sanitários, o que é inviável onde eles estão, mas não funcionou. O problema é que o ?ponto? para o camelô é onde existe concentração de pessoas e colocá-los fora desses lugares é o mesmo que impedi-los de trabalhar.

O desenvolvimento desse comércio se dá pela conjunção de dois fatores de difícil controle: a necessidade de trabalhar em alguma coisa para sustentar a família, criada pelo desemprego, e a procura por produtos a preços mais acessíveis. As tentativas para afastar os camelôs dos centros, em todas as cidades, têm fracassado porque, com bons modos eles não se movem e quando são tirados à força, resistem bravamente, muitos são feridos ou presos, mas acabam voltando. É comum vermos cenas de violência em São Paulo e no Rio de Janeiro. A prefeitura acaba recuando porque o povo se solidariza com eles, reconhecendo que eles precisam trabalhar. Fracassam, também, as tentativas para acabar com o comércio de produtos contrabandeados ou pirateados, porque a procura por eles é grande.

Esse tipo de atividade é antiquíssimo, mas convenhamos que a vida deles não é nada fácil. Alguns se tornam camelôs porque gostam, mas a maioria, por necessidade. Infiltram-se como clandestinos entre os que estão credenciados pela prefeitura e vão se multiplicando. Passar o dia todo exposto a sol e chuva, sem ter um sanitário para as suas necessidades e ir dormir com medo de no outro dia não encontrar mais a sua barraca ou encontrá-la estourada, não deve ser o sonho de todos eles. Além das reclamações e do desconforto, é comum serem chantageados por maus ou falsos fiscais. E não há solução? Imediata, não. Uma diminuição poderia vir com a prosperidade econômica do país, coisa em que poucos atualmente acreditam.

Com problemas coletivos as melhores soluções se dão quando a própria comunidade se empenha em encontrá-las. O poder público deve aparecer como indutor e facilitador, nunca como protetor e, menos ainda, como repressor. Cooperativas de catadores de lixo reciclável, de iniciativa deles, têm tido sucesso. Há associações como a Liga dos Empreendedores Comunitários (LEEC) e a Central Única das Favelas (CUFA), com reconhecimento até internacional. Um caso interessante, surgido da iniciativa de um ex-camelô chamado Elias Tergilene, é a Rede de Shoppings UAI, de Belo Horizonte. Como bom mineiro batizou de ?UAI? e hoje possui três shoppings em Belo Horizonte, um em Manaus e está mirando São Paulo. São shoppings populares, sem sofisticação, mas com todos os requisitos desse tipo de empreendimento e acessível aos camelôs que queiram entrar na formalidade. Com a ajuda do Sebrae, tem como missão: "Ser uma rede de shoppings populares que proporcione a inclusão pelo desenvolvimento social, cultural, econômico e político, fornecendo produtos, serviços e atendimento de qualidade, de forma segura e rentável aos consumidores, lojistas e investidores.

Seus valores são: Foco na classe G ? GENTE; Junto e misturado ? NÓSIII; Respeito às pessoas; Sustentabilidade através do trabalho, do aprendizado e da competência; Ser verdadeiro e transparente nas relações; Valorização do contato face a face ? pessoalidade no atendimento e Parceria em servir." Vale a pela ver a reportagem feita com Elias Tergilene, pela Globo News.

O autor é ex-presidente da Ordem dos Velhos Jornalistas de Bauru.

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