Repetir pode ser um ato imprescindível no aprendizado. No colégio chamávamos de "decoreba" o colega com facilidade de reter as fórmulas de matemática ou as lições de história, sem entender o contexto. De qualquer forma, é importante o exercício de retenção de informações na memória. Um dia, as pessoas acabam ampliando o seu campo de compreensão. Após ter decorado a partitura, o músico instrumentista pode se transformar num artista com sua sensibilidade estética e afetiva para poder transmitir a emocionalidade que o compositor queria ver tocada.
Acontece que existe outro modo de repetição: a repetição a serviço da mesmice, da compulsão de repetir por repetir, como se fosse um ritual obsessivo sem capacidade criativa. Na teoria freudiana esse conceito recebeu o nome de "morte psíquica". Repetir, repetir para não haver mudança, crescimento, desenvolvimento e expansão da personalidade. Aqui, não se aprende, aqui a repetição fica a serviço do absolutismo das ideias, da manutenção do "status quo" como um modo de impedir ideias novas e revolucionárias. Repetir como defesa contra o medo do novo. Repetir para se manter ou ganhar o poder; repetir para criar um automatismo mental na sociedade, e não para crescer, desenvolver e progredir.
Com tantas repetições acho que ficou clara a minha intenção de introduzir o leitor a uma crítica reflexiva sobre a propaganda eleitoral. Repare que os discursos são sempre os mesmos. Os candidatos se esforçam para vender "visões do paraíso" prometido, se eleitos forem. Ou mostram no sorriso falso da dona de casa, como a pobreza ficou mais bela na gestão da candidata á reeleição. No sertão da Bahia, d. Nalvinha recebeu dois dentes da frente para poder sorrir perante as câmeras de televisão ao lado de Dilma Rousseff . Outra sertaneja, d. Dalvinha, ganhou de presente um fogão à lenha ampliado para quatro bocas. Há quase um século o escritor Lima Barreto (1915) contava a história do candidato que distribuía um pé esquerdo de botina por eleitor, com a promessa de dar o outro pé se o aquinhoado comparecesse à urna para nele votar. Outro personagem do famoso autor de "O triste fim de Policarpo Quaresma" pedia só dez-mil réis para votar no "doutor". O suficiente para comparar um chapéu de palha. Diante do modesto pedido o candidato achava melhor dar logo esse dinheiro pouco, já que todos pediam muito mais. O esperto eleitor, no entanto, pedia dez-mil réis para todos que passavam pelo seu bairro. Ao final da campanha conseguia arranjar mais de cem, sem ser pesado a ninguém.
É incrível que em um mundo digitalizado, com um marketing eleitoral caro e sofisticado a ponto de envolver pesquisa do público-alvo, planejamento de mídia, cronograma de mensuração de resultados e estratégias para atingir 80 milhões de internautas que navegam nas redes sociais, ainda tenhamos métodos do início do século passado para cabalar votos nos grotões do país.
O filósofo Schopenhauer teve um dos seus estudos famosos sobre estratagemas retóricos, muito utilizado pelos poderosos e candidatos ao poder. Uma das técnicas era a de se utilizar de uma premissa falsa e, em cima dela amontoar uma série de verdades desencadeadas de forma lógica. O ouvinte acaba aceitando o discurso como verdade inconteste porque não percebeu que tudo começou com um argumento falso. Ou então o candidato "esconde" uma falsa premissa entre as verdadeiras. As chamadas "meias verdades" e as generalizações convencem mais que as mentiras deslavadas, somente praticadas por amadores. Narram-se histórias, justificam-se certos comportamentos e projetam-se nos outros a culpa pelos próprios atos, omitindo-se o verdadeiro envolvimento, ou dando sumiço do lado negativo de forma a se inocentar. Seria o caso de Aécio Neves e o aeroporto construído na fazenda do tio-avô.
Segundo o ex-presidente Lula, em relação à capacidade de acabar com a pobreza, somente o PT sabe como fazer, tem vontade política para fazer e é o único partido que pode fazer. Então, por que o Brasil é ainda o país dos banguelas e dos "sem-fogão"? Essa linha de raciocínio lembra o exercício de reflexão de Epicuro sobre a existência de Deus. Se ele é onisciente (sabe tudo), onipotente (pode tudo) e onibenevolente (bondade suprema e infinita), a existência de Deus é incoerente com a existência do mal entre os humanos. Muitos séculos depois Leibinz colocou a casa em ordem com a verdade omitida por Epicuro no seu exercício. A resposta estaria no fato de Deus ter dado o livre-arbítrio ao homem para que este escolha suas atitudes. Justamente por isso, não lhe caberia garantir que o homem sempre iria escolher o bem.
O autor é jornalista e articulista do JC