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Apesar das políticas estabelecidas para tentar conter o avanço do crack, a reincidência no vício continua alta em Bauru. Segundo dados da Secretaria Municipal do Bem Estar Social (Sebes), 62% dos usuários levados às casas de passagem mantidas pelo município sofrem recaídas e retornam às unidades até um ano depois de receber alta.
Vale ressaltar que o percentual pode ser ainda maior, já que o dado se refere a um universo limitado - as casas de passagem - e não contabiliza os dependentes de crack que receberam atendimento, se entregaram ao vício novamente e não foram mais acolhidos pelo serviço. Entre os principais motivos apontados para a reincidência estão o alto poder viciante do entorpecente, bem como a falta de perspectivas dos usuários, que esbarram na dificuldade de recuperar os laços familiares perdidos e de se inserir no mercado de trabalho para se estabelecer financeiramente.
Titular da Sebes, Darlene Tendolo sustenta que a rede de atenção especializada para cuidar dos usuários, estabelecida de maneira multidisciplinar junto à Secretaria Municipal de Saúde, é referência em toda a região. Mas destaca que, constantemente, o serviço vem sendo aprimorado, já que soluções definitivas para este problema de saúde pública ainda não são conhecidas.
“O esforço das três esferas de governo têm sido muito grande, mas o vício é muito difícil de ser combatido, independentemente das políticas que se estabeleçam. A dependência não tem cura, mas controle. E a dificuldade de a sociedade entender que se trata de uma doença também é um obstáculo para o paciente retomar sua vida normal”, pondera.
Ela explica que, em grande parte dos casos, os drogadictos perdem todos os vínculos familiares, depois de causarem inúmeros transtornos aos parentes. “Por isso, além de tratar o paciente, estendemos o atendimento também às famílias, que sofrem muito e, por muitas vezes, acabam desistindo de ajudar aquele usuário”, observa Darlene.
Oportunidades
Mas ela salienta que, mesmo que consigam se recuperar e tenham disposição para o trabalho, os dependentes podem não encontrar oportunidades, até porque o crack tende a consumir grande do tempo que poderia ter sido investido nos estudos e em profissionalização.
Para tentar superar esta barreira, ela destaca que a Sebes possui mecanismos para inseri-los em cursos profissionalizantes do Programa Nacional de Acesso ao Ensino Técnico e Emprego (Pronatec) e, se necessário for, oferecer o benefício do aluguel social, para que tenham onde morar após deixar as casas de passagem. “Hoje, por exemplo, temos 16 ex-usuários empregados por meio do Pronatec”, comemora.
A possibilidade de voltar a fazer planos, inclusive profissionais, foi o que mobilizou Carlos Henrique Freitas, 40 anos, a deixar, de vez, o crack. Há dois anos trabalhando em comunidades terapêuticas para a recuperação de dependentes, ele ainda se considera “em processo de recuperação”, mas acredita que o vício é, cada dia mais, uma página virada em sua vida.
“Nunca trabalhei na vida e fiquei muito tempo no mundo do crime, envolvido com o tráfico. Tudo de ruim que aconteceu na minha vida foi por causa do crack. Agora, com o trabalho, me sento estimulado a mudar. Mas ainda estou me recuperando. Todo dia é uma luta”, completa.
Rede de assistência
Dentro da rede de assistência municipal, o Caps Álcool e Drogas é o serviço para onde são enviados os usuários que chegam às unidades básicas de saúde. O encaminhamento também poderá ser feito pelo Consultório na Rua, planejado para os próximos anos em Bauru.
Em ambos os casos, é preciso que haja vaga para começar o tratamento. Se houver indicação médica, o paciente poderá ser encaminhado a uma comunidade terapêutica, onde ficará internado. Se o doente for morador de rua, poderá ser acolhido por uma das três casas de passagem mantidas pela Sebes ou, futuramente, pelas unidades de acolhimento da Secretaria Municipal de Saúde.
A Sebes também realiza busca ativa noturna de usuários e utiliza serviços como o Centro de Referência Especializado para População em Situação de Rua (Centro Pop) e o Centro de Referência Especializado de Assistência Social (Creas) para atender dependentes químicos.
‘É a raspa da canela do capeta’, afirma ex-usuário sobre o crack
Carlos Henrique Freitas descobriu o crack há 25 anos, na Bolívia, e, depois de inúmeras recaídas, tenta encontrar no trabalho um motivo para não se render novamente ao vício. “Conheci a maconha com 12 anos, depois passei para a cocaína e, aos 17, já era dependente de crack”, relembra.
Carlos se envolveu com o tráfico de drogas e ficou preso por 14 anos, época em que parou de fumar crack. Assim que ganhou a liberdade, em 2010, teve a primeira recaída.
“Foi falta de cabeça, mesmo. Perdi todo o contato com minha família e fui morar num barraco que virou ponto de consumo de drogas. Se o orgasmo dá 100% de prazer, uma pedra de crack dá 900%, por isso a gente abandona tudo mesmo. O crack é a raspa da canela do capeta”, diz.
Foi internado em uma comunidade terapêutica particular, voltou a usar a droga e parou de novo, por conta própria. “Foi quando comecei a enxergar que eu precisava mudar de vida. Parei de frequentar os lugares onde eu ia, me afastei das pessoas com quem eu convivia. E, há dois anos, decidi começar a trabalhar com a recuperação de usuários”, relata.
‘Dificuldade em deixar vício é mais acentuada’, diz psiquiatra
Usuários de crack tendem a sofrer mais frequentemente com recaídas e, por isso, o prazo para conseguir se livrar do vício costuma ser mais longo. É o que afirma o médico psiquiatra do Centro de Atenção Psicossocial Álcool e Drogas (Caps AD), Fabiano Airão Barboza.
Ele explica que, por ser inalado, a absorção da droga é muito mais rápida, o que contribui para aumentar o potencial de dependência. “Assim, a síndrome de abstinência vai ser acentuada.”
Segundo Barboza, o crack atua no sistema de recompensa do cérebro, dando a sensação de prazer. Como este estímulo é muito mais intenso com o fumo do crack, o usuário não consegue resistir ao desejo de usá-lo outras vezes, o que o leva a abandonar, inclusive, as atividades do dia a dia.
Página no Facebook ajuda combater o crack
Uma droga barata, cinco vezes mais potente que a maconha. O crack se disseminou pelas classes sociais e ganhou as cidades do Estado de São Paulo. Por isso, em Bauru, foi instituído o programa “Família Contra as Drogas”, página criada no Facebook, que tem o objetivo de prestar assessoria e orientação às famílias que vivenciam o drama da dependência química. O projeto, que tem Carlos Henrique Freitas como um dos idealizadores, é voluntário e sem fins lucrativos.
Segundo os organizadores da página, buscar o apoio da família é fundamental para a recuperação. Mas, nem sempre o caminho é tão fácil.
E é neste momento que a “Comunidade Atos” oferece auxílio a quem mais precisa. Na página, há ajuda e orientação às famílias para o tratamento do vício e faz o encaminhamento do dependente para clínica especializada, com abordagens terapêuticas que visam motivar os pacientes a buscarem novos estilos de vida e, de forma consequente, manterem-se saudáveis, produtivos e com relações familiares e sociais estáveis.
Agora, a “Comunidade Atos” negocia com a iniciativa privada a instalação de uma clínica própria em Andradina para receber moradores de rua. O endereço é www.facebook.com/familiacontraasdrogas.
