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Em oito anos, só dois doam medula

Cinthia Milanez e Tisa Moraes
| Tempo de leitura: 7 min

João Rosan

Valéria Coltri: “Se houvesse mais doadores, chances poderiam aumentar”

O Hemonúcleo do Hospital de Base de Bauru, que atende oito municípios da região, possui 7.300 cadastrados para doação de medula óssea, mas somente dois deles realmente fizeram o procedimento desde 2006, quando o órgão começou a realizar a coleta das amostras de sangue. Baixa procura pelo cadastro, além de difícil compatibilidade entre doadores e receptores que não são da mesma família estão entre as principais causas dessa carência.

“É muito difícil conseguir um doador não-aparentado compatível”, explica a assistente social do Hemonúcleo de Bauru, do Hospital de Base, Valéria Ferreira Nunes Coltri. Ela acrescenta ainda que o órgão é o único na cidade que realiza a coleta de amostras de sangue para doação de medula óssea.

Além da dificuldade de compatibilidade, Valéria destaca a baixa procura pelo cadastro. “Quanto mais pessoas se cadastrarem, maior a chance de haver alguém compatível”, defende a assistente social.

Para ela, o número de apenas duas doações de medula óssea em oito anos em Bauru pode ser considerado baixo. “Quanto à compatibilidade, não há o que fazer, mas, se houvesse mais procura, esse número poderia aumentar”, diz.

Embora a quantidade de doadores disponíveis pudesse ser maior para reduzir o tempo de espera por um transplante, o diretor do Centro de Transplante de Medula Óssea (Cemo) do Instituto Nacional de Câncer (Inca), Luis Fernando Bouzas, salienta que os patamares brasileiros estão dentro da média de países economicamente mais desenvolvidos, como os europeus ou mesmo os Estados Unidos.

“Para que a gente tenha uma representação (genética) considerada adequada, o ideal é que 2% da população seja doadora de medula e que esta proporção se repita em todas as regiões. Mais do que a quantidade, é a diversidade da população que enriquece o cadastro”, considera ele, que é coordenador do Registro Nacional de Doadores de Medula Óssea (Redome) e do Registro Nacional de Receptores de Medula Óssea (Rereme).

Na média

Bauru, segundo apontam os dados do Hemonúcleo do Hospital de Base, também acompanha a tendência. Considerando a estimativa de 362 mil habitantes, os 7,3 mil cadastrados no banco de doadores (todos residentes na cidade) representam exatamente 2% da população.

Em relação ao índice de compatibilidade entre não-aparentados, o município também se encaixa na média nacional. Desde que o Redome foi criado, em 1993, 1.080 dos 3,4 milhões de voluntários registrados contribuíram para salvar vidas de pessoas que precisavam do transplante. A média brasileira de doadores compatíveis, portanto, é de um a cada 3.178 cadastrados, semelhante à apresentada por Bauru, de um a cada 3.650 pessoas.

“Mas vale destacar que, quando a compatibilidade não é encontrada no registro nacional, é possível fazer a busca no registro internacional, que engloba 24 milhões de doadores em todo o mundo. Nestes últimos 20 anos, mais de 700 pacientes brasileiros receberam medula de doadores de outros países”, frisa Bouzas.


Bauruense ‘de coração’ promove campanha para conseguir doador

Diego Gonçalves Cintra, 32 anos, nasceu em Lins (102 quilômetros de Bauru), mas passou grande parte da vida em Bauru. No fim de 2005, quando trabalhava em uma empresa em Taubaté, no Litoral Norte do Estado, foi diagnosticado com linfoma, que conseguiu controlar com tratamento, mas, em fevereiro deste ano, ele desenvolveu uma leucemia. Portanto, o paciente depende de um transplante de medula óssea para garantir uma sobrevida e pede ajuda aos bauruenses.

Quando descobriu o primeiro câncer, Cintra escondeu a doença da família para livrá-la da preocupação. “Eu precisava do apoio deles nessa batalha e tive de dar a notícia”, conta. Por outro lado, a doença o trouxe uma segunda família em Taubaté. Cintra, inclusive, mora com a eles há sete anos. “Eu tive de me afastar do emprego, mas consegui terminar a graduação em administração de empresas graças à ajuda das minhas duas famílias”, brinca o bauruense “de coração”, que sonha em trabalhar na área assim que conseguir realizar o transplante.

No momento, ele faz quimioterapia até que consiga um doador. Os pais e dois irmãos do paciente já foram testados, mas nenhum deles apresentou a compatibilidade necessária. “Um dos meus irmãos tem apenas 50% de compatibilidade e eu precisaria de algo que estivesse próximo a 100%”, reitera Cintra, que espera encontrar uma medula no Redome.

  • Serviço

Quanto mais doadores se cadastrarem, maior a probabilidade de encontrar alguém compatível com Cintra e outros tantos que dependem de um transplante de medula óssea para sobreviver. Para fazer o cadastro, basta ir até o Hemonúcleo de Bauru, que fica na rua Monsenhor Claro, 8-88, no Centro. O serviço funciona de segunda a sexta-feira, das 7h às 11h30 e das 13h às 16h. Mais informações podem ser obtidas pelo telefone (14) 3234-4412.


Vai doer?

Existem duas maneiras de doar medula óssea e uma delas acaba afugentando as pessoas que se cadastram no Registro Nacional de Doadores Voluntários de Medula Óssea (Redome) por medo da dor. Neste caso, os doadores são encaminhados para um centro cirúrgico, onde recebem anestesia geral e a coleta é feita através de uma perfuração no osso do quadril. “Não vou dizer que não há dor, mas é pouca, já que os doadores são anestesiados”, orienta o oncologista pediátrico do Hospital Estadual de Bauru e do Hospital Amaral Carvalho, em Jaú (47 quilômetros de Bauru), Alejandro Mauricio Arancibia.

Outra maneira de doar é muito parecida com uma transfusão de sangue comum. Contudo, a aplicação deste procedimento depende de cada situação. “Em alguns casos, as células-mãe da medula óssea podem ser retiradas do sangue periférico”, informa o oncologista. Quanto ao volume de medula coletado em ambos os procedimentos, ele estará sujeito ao peso dos doadores e dos receptores. “Cada caso tem de ser analisado separadamente”, informa o médico.


Números

O Inca não mensura a a quantidade de bauruenses que estão à espera de um transplante, já que as estatísticas são controladas apenas por Estado. No País, 1.302 pessoas precisam de uma nova medula e, em São Paulo, são 442. Em relação aos cadastrados no Redome, são 3.432.221 doadores no o Brasil e 923.762 do Estado.


Boa ação

O Colégio Athena promoveu uma campanha para incentivar os bauruenses a doarem medula óssea. O evento ocorreu na semana passada, das 10h30 às 15h, na sede da instituição, localizada na rua Inconfidência, 7-43, na Vila Vergueiro, e contou com uma equipe do Hemonúcleo de Bauru, que coletou amostras de 5 mililitros de sangue e fez o cadastro dos interessados. Além disso, os funcionários do órgão estiveram disponíveis para o esclarecimento de dúvidas no que diz respeito ao procedimento.


Quem quiser doar medula tem de ir ao Hemonúcleo do HB para cadastro

Os doadores têm de ter entre 18 e 54 anos e não possuir doenças, como câncer, hepatite e HIV. Para fazer o cadastro, basta ir até a instituição com o RG, CPF, além do cartão do SUS e informar os dados pessoais. Em Bauru, no momento do registro, haverá coleta de duas amostras de 5 mililitros de sangue, que serão enviadas ao Instituto Lauro de Souza Lima para análise. Vale ressaltar que é necessário haver, ao menos, 95% de compatibilidade para que o transplante seja realizado.

O órgão faz o exame de histocompatibilidade e envia os dados para o Redome. Se houver compatibilidade com algum paciente que espera pelo transplante, o próprio órgão entra em contato com o doador para que faça outra coleta no Hemonúcleo de Bauru com o intuito de descartar qualquer possibilidade de engano. Mais uma vez, as amostras são encaminhadas ao Instituto Lauro de Souza Lima, que repassa ao Redome. Constatada a compatibilidade, o doador daqui é encaminhado ao Hospital Amaral Carvalho, onde é feito todo o procedimento.

De acordo com a assessoria de imprensa da instituição, o hospital é referência em toda a região quando o assunto é doação e transplante de medula óssea. Porém, como o Redome é nacional e interligado com o restante do mundo também, muitos transplantes não são feitos no órgão. Diante disso, as doações são armazenadas de forma adequada e transportadas por uma empresa especializada até chegarem aos locais onde os receptores se encontram.

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