Diga ao orgulhoso que sinta vergonha e terás um inimigo. Diga ao envergonhado que sinta orgulho e terás libertado um coração e uma alma da dor. Desde quando se deram às ações afirmativas a cara e o tamanho que vemos hoje, surgiram os ditos injustiçados. O rico, o branco, o culto, crendo que se dá mais atenção aos pobres, negros e analfabetos se sentem injustiçados e afirmam, com bravura, que as ações de afirmação promovem somente a injustiça, pois "somos todos iguais". Tal discurso é vazio, elitista e só prova o quanto estamos longe da igualdade social.
E uma das justificativas deste pensamento é a suposta contradição entre pregar a igualdade e, ao mesmo tempo, promover a diferença. Como, por exemplo, celebrar o dia do orgulho negro ou do orgulho gay. E se pergunta: como seria, então, possível, buscar a igualdade afirmando a diferença ? Não só é possível, como é necessário. Imaginemos duas jarras. Uma com água até a metade e outra com água em somente um quarto de seu volume.
Se colocarmos a mesma quantidade nas duas jarras, elas não irão continuar com quantidades diferentes de água? Para encher as duas jarras, não preciso dar para cada uma quantidade diferente de água? A igualdade estará em dar a mesma quantidade para as duas jarras ou em realmente deixar ambas com quantidades iguais? A igualdade é um fim ou um meio? Se a igualdade é um fim, um anseio, uma necessidade, precisamos agir com desigualdade. Mas não a desigualdade de exclusão que já conhecemos. E sim a igualdade de inclusão.
As minorias precisam ser tratadas com diferença; com diferença inclusiva. É isto que justifica as datas afirmativas, como o dia do orgulho negro ou o dia da mulher. E por isso é tão vergonhoso e desnecessário se falar em "orgulho heterossexual" e coisas do tipo. É desnecessário, pois uma pessoa heterossexual não sentiu vergonha disso, não sofreu discriminação por isso. Encher sua jarra é desnecessário, pois ela não está menos cheia, como a do negro e do homossexual, que são discriminados a todo instante e em todos os lugares. Uma maioria que se diz orgulhosa por sua condição deveria se sentir envergonhada, pois de orgulho pouco precisa.
Mário Henrique da Luz do Prado