Seria muito difícil entender por que árabes e judeus continuam em guerra? E não apenas desde 1948, quando a ONU determinou que a Faixa de Gaza pertence aos palestinos, mas desde os tempos em que se criou o discurso do Antigo Testamento. É fácil entender que esse discurso foi construído pelos israelitas, autores da Bíblia hebraica. Nessa época os palestinos já habitavam a estreita faixa à margem do Mediterrâneo, que se chamava Filistina, terra dos filisteus, terra do Gigante Golias. E foram eles os que mais resistiram à invasão da Terra Prometida e nunca foram totalmente derrotados pelos hebreus, como outros povos da Cisjordânia, aquém do rio Jordão, para quem vem do Mar Mediterrâneo. Segundo o mito bíblico, toda uma vasta terra tinha sido prometida por Javé Deus aos filhos de Israel, nome atribuído a Jacó e ao "povo escolhido", descendentes de Abraão, a quem várias vezes o Criador disse: "Invadam essas terras e matem tudo que respire, incluindo mulheres, crianças e animais."
Acontece que poucos cristãos leram atentamente os livros do Gênesis, Êxodo, Números, Josué e Juízes, que contam a história do povo abençoado que, conduzidos pelo Deus da Guerra, foram invadindo e se apossando de Canaã, a Terra Prometida. Por que uma divindade criadora do mundo todo escolheria apenas um povo como seu protegido? Isso é que não dá para entender! Mais adiante, na sequência do discurso, os livros dos Reis mostram como os hebreus (depois chamados judeus, da tribo de Judá) foram perdendo suas terras e as riquezas acumuladas pela escravização dos povos derrotados na guerra santa e dos "despojos da guerra", um costume que havia em todas as nações da Antiguidade.
Outro fato difícil de entender é como os hebreus, um povo pobre, escravizado por séculos no Egito, nômades do deserto, vivendo em tendas e tendo apenas a espada como arma, podiam derrotar povos sedentarizados, com governos estabelecidos, com armaduras, cavalos e carros de guerra. Que ninguém se engane com o que é mostrado nos filmes americanos, produzidos por judeus em nossos dias. Na verdade, o mito bíblico e outros mitos antigos, preservados até nossos dias, sabe-se lá como, são cheios de improbabilidades e contradições. De acordo com a teoria semiótica do discurso, a característica fundamental dos mitos é a "convivência dos contrários", ou seja, de conteúdos contraditórios num mesmo texto, breve ou longo.
A única coisa que podemos comprovar, hoje, pela análise dos discursos, antigos e atuais, é que a "violência institucionalizada" (aceita pelas instituições) do nosso mundo é uma herança cultural do Antigo Testamento, onde nasceram e se forjaram nossos "valores", que muitos gostam de dizer que hoje estão invertidos ou fora do lugar. Se isso fosse verdade, árabes e judeus não estariam se matando do mesmo modo, na disputa das mesmas terras e dos mesmos poderes. E esses podres poderes não seriam aceitos, abençoados e valorizados pelas elites religiosas, políticas e sociais.
A autora é doutora em análise semiótica dos discursos