Agora está confirmada. A ascensão de Marina Silva na preferência dos eleitores não é "nuvem passageira" formatada por fatores emocionais ligados à morte trágica de Eduardo Campos. Estamos a 35 dias do comparecimento às urnas de 140 milhões de eleitores. Marina já empata com Dilma Rousseff no primeiro turno e pode vencer no segundo. Aécio Neves deve estar muito preocupado no papel de terceiro colocado. Os analistas tentam explicar esse "efeito Marina". Alguns acham que o povo já se encheu da velha bipolarização PT-PSDB, e quer mudanças. Faltava confiança na vocação de Eduardo Campos (PSB) para levantar essa bandeira. Quis o destino que uma seringueira saída das selvas amazônicas viesse representar esse desejado câmbio, principalmente do comportamento ético na política brasileira.
Há uma segunda hipótese, que pode ser sintetizada na famosa frase do estrategista da campanha de Bill Clinton (1992), James Carville: "É a economia, estúpido". A candidatura George Bush era considerada imbatível, e quem ganhou foi o marido de Hillary. Prefiro uma associação das duas situações. Começando pela primeira, há desejo de uma reforma política que, pelo menos diminua a corrupção estimulada pela necessidade de financiamento das campanhas eleitorais, cada vez mais caras e sofisticadas. Há consenso de que a maioria dos políticos em cargos públicos executivos se preocupa, logo depois de assumir, com os esforços para continuar no poder por mais uma gestão. Para tanto, recorrem a todos os recursos ao seu alcance, o que significa acordos escusos, clientelismo e concessões puramente eleitoreiras.
A candidata à Presidência Marina Silva já declarou de forma categórica que abre mão da possibilidade de reeleição. Funciona nos Estados Unidos, com mais de dois séculos de democracia, onde existe uma cultura sólida de cumprimento das regras do jogo. No Brasil ainda predomina a cultura do "é dando que se recebe". Começou com Fernando Henrique (1997) que distribuiu benesses aos congressistas para ver aprovada a reeleição. Na reeleição de Lula, em 2006, houve antecipação da campanha pelo presidente. O mesmo ocorreu na candidatura Dilma, em 2010. Desvios se repetem em 2014. Registrem-se exemplos discutíveis de convocações de rede nacional para pronunciamentos oficiais de suposto interesse geral. Ministros são transformados em cabos eleitorais para atender ao populismo do governo. Quando presidente, Charles De Gaulle reclamava da dificuldade de administrar a França, onde se produzem mais de 400 tipos de queijo. Aqui, a dificuldade é menos prosaica. Como é possível administrar um país com 37 ministérios? Juscelino governou com 13. Temos até Ministério da Pesca, para expedir licenças aos pescadores de vara de bambu. Sem falar nas nove secretarias com status de ministério, como a de Política das Mulheres e Assuntos Estratégicos.
Neste instante é que começa a periclitar a nossa já frágil economia. Os preços administrados, por exemplo, foram contidos irresponsavelmente. Os preços irreais dos combustíveis afundou a Petrobras e levam à falência os produtores de etanol. As tarifas represadas e reduzidas da energia elétrica tiveram o efeito de um tiro no pé. Redundou numa dívida bilionária das operadoras de energia que o governo tem que socorrer. O consumo varejista foi estimulado mediante as facilidades de crédito e juros mais baixos. O modelo se esgotou e as famílias endividadas não podem mais consumir enquanto não der conta dos seus carnês de mensalidades.
Por estas e por outras a economia brasileira está estagnada. Anuncia-se uma "recessão técnica" depois de dois trimestres negativos na produção de bens e serviços. Há déficit nas contas correntes, ou seja, o país gasta mais do que recebe do exterior. As contas são maquiadas para que a contabilidade registre superávit primário, com a finalidade de pagar os juros da dívida, cada vez mais altos. O real supervalorizado em 17% também não segura a inflação. A infraestrutura precária é uma barreira ao crescimento. Não temos estradas e portos para escoar a produção agrícola, principalmente, que tem sido "a salvação da lavoura" e do país. Sem uma reforma tributária fica difícil exigir-se competitividade da indústria manufatureira. A burocracia para o preenchimento de guias para recolhimento de impostos consome 2.600 horas de trabalho por ano. A mais complicada do mundo.
Tudo isso precisa mudar, ninguém duvida. Se Marina encarna esse desejo e terá forças para tantos desafios, vamos conferir depois.
O autor é jornalista e articulista do JC