A artista plástica bauruense Tarsila Schubert é a primeira brasileira a expor um mural dentro da galeria Manarat Al Saadiyat, em Abu Dhabi, capital dos Emirados Árabes Unidos, espaço cultural que fica no mesmo complexo onde se encontra o Louvre de Abu Dhabi, o Guggenheim Abu Dhabi e o Museu Nacional Zayed.
Schubert foi convidada pelo Instituto Francês de Abu Dhabi para produzir um fresco e pintou uma obra de 2,5m x 5m para a exposição “Artscape” sobre o futebol. O trabalho agradou tanto que ficará em exposição durante seis meses - segue até novembro - e pode se tornar obra permanente do acervo da Manarat Al Saadiyat.
Schubert revela que a Manarat Al Saadiyat é um centro de artes e cultura com 15.400 metros quadrados, que abriga exposições com coleções internacionais de todo o mundo. “As principais galerias constituem-se de espaços permanentes para uma série de exposições e programas educacionais organizados por Abu Dhabi Tourism & Culture Authority. Isso faz parte de um programa cultural permanente, dedicado ao desenvolvimento de consciência e compreensão da arte e da cultura”, explica.
Além dos Emirados Árabes Unidos, Schubert já expos em países como Inglaterra, França, Portugal e Itália. Autodidata, a bauruense mora nos Emirados Árabes Unidos há dois anos, tem trabalhado em função da arte em tempo integral, participando de exposições em galerias e também realizando projetos artísticos para empresas como Nokia, Nando’s e Leo Burnett.
A artista comenta que a experiência de trabalhar com arte no Oriente Médio e expor para um público tão diferente do brasileiro é um choque cultural. “É uma experiência bem legal. Primeiro, porque brasileiro e Brasil em geral, principalmente em natureza e arte, para eles, é exótico. É interessante os olhos com os quais eles veem. Quando você coloca muita cor, para eles, é muito diferente. Lá, a arte em geral tem cores mais frias, tons terrosos, não tem muita vida, cor. Quando eles veem uma coisa muito colorida, com muita natureza, é muito legal ver a reação das pessoas”, destaca.
Trabalho pioneiro
Schubert ressalta que o trabalho desenvolvido pelo grupo de artistas ao qual pertence é pioneiro nos Emirados Árabes. “Street art lá não existe, a gente está tentando agora começar, quebrar os paradigmas em relação à arte no país. Estamos tentando introduzir esta mentalidade de arte na rua do que a gente tem aqui no Brasil”, relata.
A bauruense trabalha com 12 artistas de várias nacionalidades. “Tem gente das Filipinas, Austrália, Nova Zelândia, Itália... de todo lugar do mundo. Estamos tentando mudar a cena de arte de lá. Não é fácil. A maioria das pessoas tem outra cabeça. Para eles, arte é uma coisa e para nós é outra. Eles gostam muito de realismo e, se você entra com cubismo, surrealismo, a aceitação é outra”, aponta.
O grupo já organizou a primeira exposição de street art de Dubai. “Foi muito legal, um trabalho independente e que teve grande público”, celebra Schubert. A artista realizou o primeiro mural de street art na principal e mais movimentada avenida de Dubai, a Sheikh Zayed Road.
“Também faço parte de outro grupo que está fazendo exposições sobre a América Latina. Vai ter um festival sobre a América Latina em outubro e vou participar”, revela. Schubert afirma que o trabalho enfrenta barreira culturais, mas encontra respaldo. “Tem muitos que olham com olhos preconceituosos por causa da religião e cultura, mas também muitos querem mudar.”
Liberdade
Em uma sociedade com costumes e leis rígidas, a artista plástica bauruense Tarsila Schubert levanta como ponto positivo a liberdade que encontra para trabalhar, sem limitações. “E é justamente isso o que eu quero, me expressar livremente e de maneira pura. Não pode ficar pensando ‘e se não gostarem’ ou ‘tenho que fazer isso’. Isso, para mim, não é arte. Faço o que tenho vontade e está tendo aceitação”, declara. A artista afirma que só teve problema com uma obra. “Foi um trabalho em um área bem pobre. Pintei um mulçumano rezando e postei na rede social. Aí meio que me ameaçaram, um cara supertradicional falou para mim que eu estava sujando a religião, porque muçulmano não reza em lugar sujo. Eu tive que tirar”, comenta.