Muitos dizem que no ensino médio há uma carga de matérias muito pesada para pouco ser aproveitado no futuro, o que se justificaria apenas para selecionar os estudantes no vestibular. Sem verificar a verdade dessa afirmação, algumas noções do colegial ainda permanecem vivas na memória. Dentre elas está o conceito de rima pobre, ou seja, aquela que se utiliza de palavras da mesma classe gramatical. Fato é que a cada biênio as grades de emissoras de televisão e rádio são entulhadas com o horário eleitoral obrigatório. Salve-se quem puder. Dura pouco se compararmos aos tão criticados programas dominicais, mas parece que o tempo não passa. A impressão que dá é que depois de horas e horas ainda há candidatos fazendo graça e se utilizando de rimas pobres para o eleitor memorizar uma sequencia de números. Talvez seja o caso dos especialistas em rima criarem uma nova categoria: a rima política.
Parece que a internet passou a ser solução ao menos em dois sentidos. Explico: a internet passa a ser uma mídia alternativa à televisão e ao rádio, na medida em que não é atingida pelo horário eleitoral obrigatório. Assim, os brasileiros pouco interessados no show de horrores transmitido pela TV e pelo rádio ? que não são poucos ? tem a opção de navegar pelos meandros da rede mundial. Não bastasse esse lado da rede como via alternativa, a internet também é a solução para quem quer fazer do seu voto um instrumento democrático de mudança. Pesquisar sobre a vida pregressa do candidato, suas opiniões sobre temas polêmicos e acompanhar as campanhas também são possibilidades que surgem com a navegação.
Fica, pois, a crítica ao horário eleitoral obrigatório. Será que um país que se permite sonhar entre as maiores economias do mundo admitiria a escolha dos seus governantes com base em alguns poucos minutos ? ou dependendo do cargo, alguns segundos ? de rimas e frases prontas? Alguém se convence em votar em um candidato apenas por ouvir a frase: meu nome é tal, número tal? Eventualmente nasce do programa eleitoral um candidato vencedor que utiliza seus poucos segundos de maneira tão marcante ? naturalmente sem propostas sérias ? que acaba eleito. Pior do que está não fica, certo?
Certo é que o país precisa mudar esse formato antigo de política. O brasileiro, já desinteressado das questões políticas em razão dos escândalos de toda sorte, se distancia cada vez mais da importância que deveria dar ao voto. Não nos esqueçamos de que a lei, seja ela frouxa, incompleta ou absurda, é editada por aqueles que formulam suas rimas pobres no horário eleitoral. Mais do que isso, são eleitos para o Poder Executivo e acabam determinando o destino de todo o dinheiro recolhido em tributos, o que não é pouco. Seria temerário não terminar dizendo que educação, saúde, segurança, transporte e tantos outros temas importantes serão decididos por eles em nosso nome, com a nossa chancela por meio do voto. Essa é a razão pela qual as rimas pobres ou piadas contadas durante o horário eleitoral não devem nos conquistar.
O autor é advogado e colaborador de Opinião